O QUE É O TRANSTORNO DE ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO COMPLEXO?

Atualizado: 16 de out.

Desorganização do senso de realidade, da verdade e de si mesmo. O Transtorno de Estresse Pós-Traumático Complexo é o diagnóstico de quem passa por longos períodos de vivências traumáticas .


Confusão de valores, dúvida, memórias deformadas e não confiáveis, experiências ominosas muito similares que se repetem ao longo da vida sem que se tome consciência. Estas são algumas das manifestações desta condição.


Conhecer mais sobre o transtorno é algo essencial para que se desvencilhe de um looping nocivo e se evite re-traumas.



O TEPT Complexo é um termo relativamente novo. Profissionais da área da saúde mental tem observado que alguns tipos de trauma possuem sintomas adicionais, mas ainda não entram em consenso se ele é uma forma de transtorno pós-traumático ou uma condição inteiramente separada.



O ruim que é bom, o gostoso que dói,

o amor que odeia


O juízo de valores de quem passa por situações traumáticas por longos períodos de tempo é afetado. Ser invadido por um sistema de valores que beira ou é francamente insano faz com que o mundo interno se desorganize um tanto. Sendo assim a noção de si mesmo não é construída em bases tão firmes. Acontece um distanciamento de si mesmo, do self.


O que fica mais próximo é a incerteza e confusão, "O que eu vivo é normal?", "A raiva ou ódio que sinto é valida?", "Tudo o que está acontecendo parece normal e anormal ao mesmo tempo", "Todos ao redor de mim encaram isso com normalidade, eu também deveria?".


Quais são os sintomas do TEPT Complexo?

Qual é a causa do TEPT Complexo?

Por que as situações traumáticas continuam acontecendo?

Como é a relação com o abusador?

Como são as relações com as pessoas?

Como começar a me curar?

Uma história para ilustrar

Conclusão

 

Quais são os sintomas do TEPT Complexo?


  • Alterações na regulação dos afetos e impulsos

  • Alterações de atenção e consciência

  • Alterações na autopercepção

  • Alteração e dificuldade nas relações com outros

  • Alteração nos sistemas de significado e valoração


É como se a pessoa traumatizada tivesse um juízo de valores invertido ou então confuso, entra em dúvida sobre o que pode ser certo e errado e algumas vezes isto pode se manifestar até em uma crise de angústia.


O mal querer e o bem querer, o que machuca e o que faz bem podem ser conceitos que são muitíssimo fluidos ou voláteis, e isso pode fazer com que a experiência de viver seja caótica e o sentimento de insegurança um tanto constante, por que há uma sensação de que não existe nada certo ou firme com o que pode se contar.


A desregulação emocional é presente, ela pode ser sentida como um estado contínuo de insatisfação e inquietude, estado de raiva explosiva ou então extremamente inibida. Pode haver também uma compulsão sexual muito marcada ou então uma sexualidade extremamente inibida. Em casos mais graves pode haver ideação suicida e auto-mutilação.


A auto percepção fica prejudicada no sentido de que a própria potência não é percebida ou até não crível. O que persiste é a sensação de desamparo, vergonha, auto responsabilização ilógica, estigmatização, se sentir diferente de todos ou até se sentir não humano.


Qual é a causa do TEPT Complexo?

  • Trauma interpessoal no início da infância, ao longo da infância e adolescência

  • Abuso infantil, negligência ou abandono

  • Ambiente doméstico violento ou abusivo

  • Repetidamente ter presenciado violência ou abuso

  • Ter sido invadido por um sistema de valor duvidoso, ambíguo ou controverso

  • Ter sido isolado do convívio do grupo regular que não apresenta perigo

Em casos graves:

  • Ser forçado ou manipulado à prostituição

  • Tortura, sequestro, escravidão

  • Ser prisioneiro de guerra


A questão da repetição dos traumas ao longo da vida


Não é incomum que os mesmos desafios e situações traumáticas primárias apareçam na nossa trajetória, ainda que com roupagens diferentes. Freud chamava isso de compulsão à repetição.


Segundo ele, toda a vivência que não não alcança uma digestão psíquica e emocional suficiente, como o trauma, são reprimidos e alocados em algum lugar longínquo do inconsciente. Ele está fora da consciência mas não inativo.


É por isso que Freud diz "Nós não somos os donos da nossa própria casa". O inconsciente também guia nossas decisões e estofa nossos pensamentos. Sendo assim ele pode nos conduzir de novo e de novo à aquele algo intolerável que foi guardado na tentativa de o digerir efetivamente desta vez.



A relação com o perpetrador


A nomeação que se faz: abusador, perpetrador, é em si mesma um elemento que causa dúvida e confusão ao traumatizado. Afinal, como alguém poderia chamar um pai que dá um teto e comida de perpetrador? Como chamar um líder espiritual que ama e é caridoso de abusador?


A pessoa traumatizada pode experimentar algumas percepções sobre perpetrador: preocupação exacerbada com a relação, ideias de vingança, uma atribuição utópica de poder total à figura, idealização ou gratidão paradoxal, senso de que a relação tem uma qualidade especial ou sobrenatural, aceitação das crenças e racionalizações da figura perpetradora.


O perpetrador pode ser um pai, uma mãe, um cuidador ou então um ambiente que tenham características psicóticas, perversas ou patologicamente narcisistas. Esta(s) figura(s) e a relação que se tem com ela(s) viram referência, assim como todo pai, mãe e cuidador se tornam.


O perpetrador é aquele que possui qualidades predatórias."O mundo é dos espertos", "Eu fiz por que você deixou" , "O golpe tá aí, cai quem quer" são frases que marcam a idéia (ou delírio) de superioridade que habita este tipo de personalidade. Há uma extrema recusa à sensibilização, despojamento, humildade e até ao amor.



A relação com os outros


A relação com as pessoas e o mundo lá fora sofrem alterações. A pessoa traumatizada pode ter a necessidade de isolamento e afastamento. Relações íntimas ou amorosas tendem a ser disruptivas ou turbulentas como consequência do mundo interno do traumatizado que também tem as mesmas características.


Há também uma procura constante pela figura do "salvador" e idealização de que algo ou alguém tem a capacidade absoluta de curar, libertar, defender ou redimir o traumatizado ou até fazê-lo experimentar o estado de êxtase. Esta é uma armadilha perigosa pois estas são competências idealizadas e utópicas que justamente personalidades psicóticas, perversas ou narcisistas costumam se travestir delas.


Nós humanos fazemos o possível para cuidar e amar dos nossos, mas não podemos e nem temos capacidade de entregar um ideal épico. Temos as nossas limitações, somos mortais. Os olhos do traumatizados estão viciados e ele tende a ver qualidades mágicas em qualquer superfície que se mostre adequada para a sua projeção. Isto acaba criando uma sequencia de frustrações que podem levar à um estado de desconfiança e descrença nas relações.


Na relação com o outro pode haver também uma tolerância extrema à comportamentos inadequados, violentos e cruéis. O filme "Speak no Evil" retrata isso de forma absurdamente angustiante e categórica. A atração pelo mistério da ambiguidade do perpetrador, a dúvida sobre a adequação dos próprios sentimentos e intuições e o comportamento submisso adquirido do traumatizado fazem com que se envolvam facilmente em jogos perversos e insanos. Não recomendo este filme à aqueles que estão muito sensibilizados.



Destruir e Amar a coisa certa


Destruir sim. Não do jeito concreto e comensal do perpetrador, mas de um jeito simbólico, lúcido e digno. Há na cultura religiosa indiana o deus da destruição, Shiva. Segundo o hinduísmo ele é o senhor dos finais e abre caminho para a renovação.


Acho este simbolismo muito precioso e necessário à nós que estamos imersos em uma cultura que exalta a permanência, imortalidade, não vazio, não falta. Tu não podes ser nada menos que perfeito. A morte, a falta, o limite, o vazio e a insuficiência são coisas que nos constituem. Não necessariamente nos diminuem, mas sim abrem campo em nosso psiquismo para a aceitação, a paz, a humildade, o sentimento de irmandade, gratidão e pertencimento.


O que acontece geralmente com o traumatizado é que ele simbolicamente destrói o amor e ama a destruição. Destruir e amar a coisa certa é algo muito importante no sentido de que este processo vai estabelecendo internamente um novíssimo juízo de valores que pode ser mais acurado, afinal, quando vivemos, passamos pela experiência e aprendemos, saímos com um entendimento maior sobre o que é bom ou ruim para nós.


Aqui o estado de sobriedade é fundamental para tal discernimento. Se você sente que não consegue discernir, procure ajuda.



Os casos de TEPT Complexo em integrantes de cultos


Os cultos podem ilustrar bem o funcionamento e a construção da condição do TEPT Complexo. É um exemplo das formas mais grotescas de trauma complexo que uma pessoa pode viver.


Michel Young, quando criança, era integrante de uma seita chamada "Children of God", procurada pelo FBI e Interpol. Entre as práticas do grupo havia estupro, incesto, encarceramento e sequestro. A justificativa para tal era a o crescimento da população da tribo, assim dizia o carismático líder Evangélico David Berg.


O culto adotava o dogma cristão e o conceito hippie de amor livre dos anos 60, Berg dizia aos muitos seguidores que "Seu corpo não é seu, ele pertence à Deus". Young teve sua primeira experiência sexual aos 4 anos de idade.


O procurador geral de Nova York estimou que haviam pelo menos 120 comunas antes de seu líder falecer em meados dos anos 2000. É realmente chocante que pessoas comuns como eu e você possam fazer parte de um delírio coletivo, mas não é algo impossível.


Quando a seita perdeu força com o falecimento do líder, seus seguidores tiveram que pouco a pouco voltar à sociedade e foi aí que a confusão começou a tomar Michel "Eu ainda estava pensando no que eu devia fazer e no por que eu saí. Eu deveria ter saído? E Jesus é real? Eu estava muito assustado, tinha ataques de pânico pensando que eu iria para o inferno."



Conclusão


As pessoas que tem o diagnóstico de trauma complexo foram enlouquecidas mas não são loucas. Foram expostas à um ambiente psicótico mas não são esquizofrênicas. O que surge da vivência traumática é pura confusão de valores e sofrimento.

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