TEPT-C: o contato com o self como caminho
- 23 de jan.
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Trauma complexo não é necessariamente uma coleção de cenas grotescas, nem sempre faz barulho, nem sempre se impõe com marcas visíveis.
O TEPT-C, ou transtorno de estresse pós-traumático complexo, ocorre quando alguém é afetado por um ambiente psicótico, em outras palavras, adoecido. Esse ambiente dissolve fronteiras, distorce percepções e consome identidades.
Quando uma pessoa vive muito tempo em um ambiente emocionalmente caótico (isso pode ser em uma família, relação ou situação abusiva) não há limites claros. A realidade é distorcida e a identidade da pessoa sofre mudanças. Geralmente, essa mudança tem uma conotação negativa.

Mesmo assim, a pessoa que passa por um trauma complexo pode continuar sentindo, percebendo e tentando se manter como alguém em separado do caos. As vezes isso pode ser muito difícil por que dependendo do ambiente ou situação, a pessoa traumatizada passa a se reconhecer como esse algo ou alguém com uma conotação ruim, assim como o ambiente externo a reconhece.
A capacidade de se reconhecer como alguém em separado é o fio que pode, um dia, puxar para fora do pesadelo.
O trauma complexo costuma ser associado à violência explícita, à perversidade familiar, aos grandes traços patológicos. No entanto, nem todas as histórias de TEPT-C cabem nesse molde. Muitas vezes, trata-se de um cotidiano vivido com pais ou cuidadores que, por suas próprias questões mentais, criam um ambiente cronicamente adoecido.
Às vezes não há gritos, talvez nem discussões. Apenas a experiência paulatina de dissolução do próprio eu: a criança que aprende a decifrar o humor do outro antes de sentir o próprio, que se acostuma a não ser vista ou então a ser aquele que os outros dizem que ele ou ela é.
É nesse ponto (na manutenção dessa centelha de existência) que reside algo difícil de nomear, mas absolutamente decisivo.
O paradoxo do sujeito no ambiente adoecido
A experiência do trauma complexo é marcada por um paradoxo. O eu mesmo permanece ali, intacto em algum lugar, mesmo quando tudo ao redor busca dissolvê-lo.
Há quem viva anos sendo o observador de comportamentos repulsivos, consciente de que aquilo não é certo, mas sem os recursos internos ou externos para ir embora.
O sofrimento nasce dessa lucidez ou a lucidez nasce do sofrimento? Saber que se é diferente do entorno, mas ainda assim estar preso nele. A consciência, no caso em que ainda não se tem autonomia, não é alívio, é exposição. É como assistir a própria história de dentro, incapaz de alterar o roteiro. E para algumas pessoas, nunca, em momento algum, confundindo-se com ele.
Esses dias meu paciente, ao descrever o último filme da franquia Extermínio, captou esse ponto. Ele via, na trajetória do personagem traumatizado, a força silenciosa de quem sabe que o grupo propaga algo que não é ideal.
Uma convicção tão profunda que, mesmo sem garantias, se torna motivo suficiente para abandonar tudo, até perder, se for preciso. Este é um tipo de ideia magnânima: eu existo, eu sou gente, eu tenho valor, eu acredito nisso.
No TEPT-C, essa é a linha de resgate. O problema é que, muitas vezes, ela também é a corrente que leva de volta a memórias de rechaço, impedimento e julgamento.
Entre o insuportável e o possível: nuances do TEPT-C
O trauma complexo raramente se constrói em um único acontecimento. Ele se constrói na repetição, no viver constante com pais ou cuidadores que oscilam entre presença e ausência, lucidez e delírio, proteção e ameaça.
Em ambientes assim, o sujeito se vê forçado a desenvolver uma espécie de segundo olhar: um que observa, avalia, reconhece o absurdo, mas permanece, porque não há alternativa naquele momento.
Se trata de uma resignação que visa sobrevivência. Há uma diferença crucial entre estar anestesiado e estar consciente sem poder agir. No TEPT-C, a dor é justamente essa: estar suficientemente acordado para perceber o que não está certo, mas ainda incapaz de se mover em defesa de si mesmo.
Como psicóloga, observo que a redenção possível nesses contextos não está em negar a dor, nem em buscar explicações simplistas sobre resiliência. Está em nomear a experiência e reconhecer a existência dessa centelha de autonomia que nunca se apaga completamente.
O sujeito traumatizado não é um vazio; é alguém que, mesmo nas sombras, preservou a ideia de que sua existência tem valor. Isso não resolve a situação, mas abre espaço para que, algum dia, o movimento de sair (seja físico, psíquico ou simbólico) se torne possível.
Como lidar com o paradoxo do trauma complexo?
Não há fórmulas prontas, mas algumas práticas podem ampliar o espaço interno para quem vive ou viveu o TEPT-C:
Práticas para reconhecer-se como sujeito
Nomear o vivido: Dar palavras às experiências, mesmo que fragmentadas, pode ser o início da reintegração da identidade.
Reconhecer pequenos gestos de separação: Notar momentos em que, mesmo sem agir, foi possível discordar internamente do ambiente.
Buscar espaços de escuta qualificada: Terapia não é apenas lugar de explicação, mas de acolhimento da ambiguidade . Inclusive da sensação de estar à parte, mas ainda preso.












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