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AUTO SABOTAGEM: por que é tão fácil ser seduzido por promessas e perder o próprio eixo?

  • 26 de jan.
  • 4 min de leitura

Não existe mistério: auto sabotagem hoje é quase regra, não exceção. Viver sem se auto sabotar exige uma marca interna tão forte quanto rara, uma espécie de totem interior invisível, resistente às tentações e distrações que nos atravessam a cada minuto.


Manter pensamentos próprios, neste cenário, virou privilégio de quem pode pagar para não ser bombardeado por anúncios, algoritmos, vozes e fórmulas. Não se trata apenas de repetir padrões inconscientes, antes disso, estamos, quase todos, expostos a uma dissolução sutil da nossa concentração.





Entre promessas e distrações: o panorama atual da auto sabotagem


A auto sabotagem não se apresenta mais apenas como um fenômeno psicológico relacionado à repetição de padrões do passado. Hoje, ela se mostra, sobretudo, como um efeito colateral da ausência de um eixo central interior.


O mundo oferece alternativas incessantes, convites para ser outra coisa, para desejar o que não se deseja, para acreditar no que não se acredita. A mente, este órgão sensível, assemelha-se a uma antena sem sintonia definida, captando qualquer frequência disponível.


O que normalmente se chama de auto sabotagem (adiar projetos, boicotar oportunidades, abandonar desejos) não é necessariamente resultado de um desejo inconsciente de fracasso. A questão é que escolher é deixar uma outra opção morrer.


O excesso de estímulos externos faz com que a vida psíquica se fragmente, e as escolhas se tornem reações a impulsos momentâneos, não expressões de uma verdade pessoal.



O Totem interno: a função da marcação psíquica


A questão, então, não é apenas evitar armadilhas externas, mas construir algo que Melanie Klein chamaria de objeto bom: uma referência interna que resista ao bombardeio do mundo. O totem interno, essa marcação forte, apaixonante, é o que permite retornar a si mesmo quando tudo parece dissolver-se.


Sem ele, a mente vagueia, seduzida ora por promessas de felicidade fácil, e sem uma hierarquia de importâncias clara, ora por um ideal de performance, ora por um medo de ficar para trás.


É comum, na clínica, encontrar pessoas que se sentem incapazes de sustentar suas próprias vontades, pensamentos e opiniões. A busca por validação externa, o medo de não corresponder a expectativas, tudo isso contribui para a erosão desse núcleo interno. O resultado é uma vida guiada mais por distrações do que por desejos autênticos.



Quando a auto sabotagem é sintoma de algo mais profundo?


Há situações em que a auto sabotagem não se explica apenas pela falta de um eixo central. Experiências relacionais marcantes como críticas precoces, relações de submissão, vivências de desvalia, podem criar vozes interiores que repetem, como um mantra silencioso, que não se merece conquistar, crescer, ousar.


Nesses casos, a dificuldade de se permitir é menos sobre distração e mais sobre sobrevivência psíquica: ocupar um lugar modesto pode ser uma estratégia para evitar o ataque, o abandono, a inveja alheia.


Na minha experiência como psicóloga, é preciso distinguir entre a auto sabotagem que nasce da falta de um totem interno e aquela que emerge de uma trama mais profunda, ligada à história relacional. Nem sempre as duas se separam nitidamente, mas reconhecer essa diferença pode ser um primeiro passo para compreender o funcionamento singular de cada um.



Como fortalecer o totem interno?


Não existe receita universal, porque o totem interno não se forma por instrução, mas por experiência. Ele se fortalece quando a pessoa entra numa busca ativa por boas experiências: ambientes, atividades, saberes e, sobretudo, pessoas com as quais se identifica e se sente viva, menos em adaptação defensiva.


Explorar o mundo em busca de predileções: aquilo que desperta interesse genuíno, prazer psíquico ou sensação de sentido é central. É no contato repetido com essas experiências que algo externo deixa de ser apenas estímulo e passa a ser internalizado como um eixo, compondo o próprio mundo interno.


A escrita íntima, contemplação pode ajudar a diferenciar o que é próprio do que é ruído ambiental, mas ela não substitui o vivido. O totem se constitui quando a experiência é suficientemente boa para ser levada para dentro, reconhecida como “isso é meu”. Trata-se de algo que se constrói na relação, no tempo, e não por adesão a promessas fáceis ou validações externas.



Perguntas úteis para ampliar o próprio entendimento:


Que experiências, ideias ou pessoas funcionaram para mim como referência segura ao longo da vida?


É possível identificar momentos em que uma decisão foi tomada por desejo genuíno, e não por medo ou distração?



FAQs


O que é auto sabotagem na vida moderna?


A auto sabotagem, hoje, diz menos respeito a um desejo inconsciente de fracasso e mais à dificuldade de sustentar um centro psíquico próprio em meio a tantas distrações e promessas.


Não é apenas sobre evitar o que faria bem, mas sobre não conseguir diferenciar o que realmente faz sentido diante de tantas ofertas de sentido.


Como saber se a auto sabotagem é efeito da minha história relacional?


Se há uma voz interna constante que impede conquistas, que desautoriza desejos ou que te mantém em lugares submissos para evitar conflitos ou ataques, é possível que a auto sabotagem esteja ligada a vivências afetivas precoces, onde o medo do olhar do outro ou da rejeição foi determinante.



Conclusão


Eu percebo que o desafio maior não está em resistir a tentações externas, mas em construir internamente aquilo que resiste ao tempo, ao olhar do outro e à própria oscilação dos desejos.


Sem prometer soluções fáceis, abrir espaço para a construção (ou reconstrução) desse totem interno é, talvez, o movimento mais revolucionário e necessário para quem deseja caminhar com menos auto sabotagem e mais verdade própria.

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Psicóloga Bruna Lima

CRP 06/130409

Bruna Lima Psicóloga Clínica

Psicblima@gmail.com

+55 11 99411-3832

Bruna Lima é psicóloga clínica com 5 estrelas no Google. Graduou-se em Psicologia pelo Centro Universitário FMU  e tem 10 anos de experiência em psicologia clínica.

Cadastrada E-psi, atende on-line a brasileiros expatriados há 10 anos.

Possui três especializações/certificações em psicanálise pelas instituições:

Bruna também é colunista no AllPopStuff e tem um canal no YouTube.

Com sua sólida formação, Bruna utiliza abordagens psicanalíticas personalizadas para ajudar cada paciente adulto.

Oferece atendimento online e presencial. Entre em contato para agendar.

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