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O BABACA sou eu?

  • 18 de fev.
  • 5 min de leitura

Babaca é o nome utilizado hoje em dia para alguém que com suas atitudes prejudicou uma pessoa e não se importa com isso. A dessensibilização para com os sentimentos ou bem estar de alguém hoje em dia advém do modelo de vida que vivemos: somos muitos pisando na superfície dessa terra, inúmeros desejos, histórias e visões de mundo.


Ouvindo tantas vozes distintas, tentamos nos guiar moralmente com base em nosso entorno e com base na informação massificada, que muitas vezes podem nos induzir à escolhas não muito boas.


Falando sobre escolhas não muito boas, o babaca é alguém com um desinteresse crônico pelos outros e por isso pode tomar decisões que prejudicam. Todos nós estamos sujeitos a sermos babacas, é como se estivéssemos sempre expostos à possibilidade de cruzarmos a linha que divide o moral do imoral.


Hoje em dia há discussões online sobre a possibilidade de alguém estar sendo babaca ou não, tal a dúvida que paira, "será que eu estou sendo babaca?".


Ilustração do babaca moderno e a dessensibilização emocional nas relações: manipulação psicológica, gaslighting, inversão de culpa e desresponsabilização afetiva. Representa comportamentos como sadismo, provocação, mentira e desvalorização do sofrimento do outro, discutindo a banalização da crueldade e o perigo de normalizar abusos emocionais. Conteúdo de psicologia e psicanálise sobre pessoas tóxicas, abuso emocional, relações abusivas e falta de empatia.

Geralmente quem tem a aflição de ter sido um babaca não, não foi. O babaca é alguém que não sente aflição ou culpa, ele simplesmente não entende que a sua atitude significa alguma coisa. E isso é estar dessensibilizado para com o mal estar do outro.


Em muitos contextos, suspender a sensibilidade não é visto como falha, mas como algo necessário ou normal. Pense nos "rituais" de iniciação que temos ao longo da nossa vida, por exemplo, ao iniciar uma faculdade o “bixo” é exposto ao constrangimento público em nome da integração.


Pode ser um algo que é divertido, uma brincadeira: ser pintado, pedir dinheiro para desconhecidos, raspar o cabelo... tudo depende de como se encara essa passagem e de como ela é conduzida. Nesse ritual a pessoa se dessensibiliza um tanto, passa a enxergar a possibilidade de não se levar tão à serio e fazer amigos que talvez você nunca pensou que teria. O desconforto é relativizado porque cumpre uma função social.


Mas há certos rituais que dessensibilizam a percepção de alguém para com o valor e sentimentos do outro. E estes levam aos caminhos tortuosos das relações desiguais, irresponsáveis e que causam dor.



O babaca atual


Eles tem vários nomes: esquerdomacho, homem performático, boy lixo, redpill. Elas também: girl boss tóxica, feminista performática, mean girl, vítima profissional. São vários. Todos rótulos que tentam capturar cada forma de ser um babaca ou então cada forma de estar dessensibilizado à existência alheia.



A babaquice pode chegar a níveis extremos como o prazer que alguém pode sentir em prejudicar outra pessoa, coisa que assume tons mais psicopáticos.


O curioso é que “babaca” também significa o contrário: não o predador, mas o tolo, o ingênuo, o que não percebe que está sendo usado ou fazendo alguma besteira. A palavra serve tanto para o agressor quanto para a vítima. Isso diz muito sobre nosso tempo: a dessensibilização virou inteligência social, e sentir demais virou motivo de vergonha. E aí entra o discurso da responsabilidade emocional que às vezes é ética real, mas muitas vezes pode cair no lugar de etiqueta psicológica, uma forma sofisticada de parecer humano enquanto se continua indiferente. O babaca atual não é só o que machuca: é o que machuca e ainda se descreve como “maduro”.



A vítima do Babaca

Os babacas não se sensibilizam. Quem dirá se sensibilizar para um mal-estar que nem a própria pessoa que está sendo prejudicada consegue reconhecer com precisão.


Muitas vezes quem sofre sente algo errado, mas não consegue nomear o que foi ultrapassado, quais limites foram invadidos ou se aquilo foi uma violência.


A experiência é difusa, confusa, corporal antes de ser racional. É assim, por exemplo, com meninas que foram abusadas: sentem vergonha, culpa, desconforto, mas ainda podem não ter repertório ou palavras para nomear o que foi aquilo.


O babaca, no entanto, raramente é visto como ameaça. Ele costuma ser percebido como crianção, bobão, chato, egoísta. Um sujeito imaturo, mas inofensivo.


E é justamente aí que se instala um segundo nível de dessensibilização: a dessensibilização ao perigo por parte de quem sofre com um babaca.


Quando o comportamento agressivo é rebaixado a traço infantil ou falha de caráter leve, uma brincadeira que vira violência, deixa de ser reconhecida como violência e passa a ser tolerada, normalizada.



O comportamento Babaca


  • Distorcer a percepção da outra pessoa para que a sua vontade seja vista como algo bobo ou pudico, para que uma realidade desvalorizada seja enxergada como normal, para que o valor do outro seja entendido como menor, induzir ao erro, etc.

  • Sadismo: Ter prazer com o sofrimento, vergonha, desconforto, desespero do outro.

  • Provocação: Criar situações para tirar o outro do sério e depois acusá-lo de descontrole. Instigar, cutucar, fazer “brincadeiras” ofensivas e observar o outro perder a compostura como se isso provasse alguma inferioridade.


  • Bajulação: Inflar o ego do outro para desarmá-lo. Elogiar não por admiração, mas como técnica de acesso, controle e captura. Fazer o outro baixar a guarda para então pedir usar.

  • Inversão de culpa: Fazer algo que prejudica e, quando confrontado, transformar a reação do outro no verdadeiro problema. “Você é dramático.” “Você é inseguro.” “Você que entendeu errado.” O dano deixa de ser o ato e passa a ser a sensibilidade do outro.




Deixar de ser sensível e os problemas que surgem disso



O imperador Comodo ilustra sobre dessensibilização emocional e comportamento abusivo nas relações contemporâneas. Aborda temas como gaslighting, manipulação psicológica, inversão de culpa, responsabilidade emocional e violência relacional. Representa o babaca moderno como figura que normaliza o sofrimento alheio, minimiza limites pessoais e pratica abuso emocional de forma sutil. Conteúdo de psicologia clínica e psicanálise sobre pessoas tóxicas, relações abusivas, narcisismo, desvalorização do outro e banalização da crueldade.
Joaquim Phoenix interpretando o imperador romano Comodo

A dessensibilização para com pessoas, mulheres, crianças, animais ou o ser humano em geral não surgiu hoje: ela remonta a práticas antigas, como os sacrifícios sumérios e egípcios (pré-2000 a.C.), que afastavam “espíritos malignos” ao culpar vítimas (“ele é o culpado, não eu”) ou desvalorizá-las (“essa criatura não tem valor”). Em tese, era para um bem maior, mas o “bem maior” quase sempre foi o nome elegante dado ao privilégio de alguém.


Em muitos períodos históricos, a morte ou tortura do outro não servia a uma coletividade real, mas à manutenção do poder, à necessidade de um bode expiatório, ao prazer do espetáculo e à reafirmação de hierarquias. Assim como o imperador romano Cômodo, que transformava violência em entretenimento e o sofrimento alheio em prova de autoridade: não se sacrificava para salvar o mundo, sacrificava-se para que pudesse se sentir soberano.


O termo dessensibilização é um conceito psicológico moderno, para os antigos sumérios por exemplo, o ato de não se importar com alguma expressão de vida era completamente normalizado. Sacrifícios eram parte do dia dia, ninguém se questionava. Hoje em dia estamos começando a ter um pouco mais de visão sobre o que seria passar do limite. Essa visão talvez precise ser mais aprimorada, eu sei, mas estamos trabalhando nisso.


E cá estamos hoje em dia discutindo a nossa cegueira em relação ao mal estar do próximo. Depois de escândalos como os do tráfico humano atual, um exemplo grave e grotesco do nível de dessensibilização que podemos alcançar, tentamos ter mais consciência sobre o que faz mal a mim mesmo e ao outro, mas não sem grandes desafios.



Conclusão


Talvez o ponto não seja eliminar os babacas do mundo, mas reconhecer quando estamos atravessando essa linha. A fronteira entre sensibilidade e indiferença é mais tênue do que gostaríamos de admitir. E toda vez que deixamos de nos perguntar sobre o impacto das nossas ações, essa linha se desloca um pouco mais.



Referências


ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.


BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, v. 3, n. 3, p. 193–209, 1999.

1 comentário

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Ananda
18 de fev.

Esse texto me deu uma sensação incômoda, e isso é um elogio. A parte mais assustadora não é o “babaca óbvio”, o agressivo declarado, é o babaca disfarçado de bobão, de crianção, de “ele é assim mesmo”. A gente normaliza tanto certos comportamentos que quando percebe já está explicando abuso como se fosse traço de personalidade.

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Psicóloga Bruna Lima

CRP 06/130409

Bruna Lima Psicóloga Clínica

Psicblima@gmail.com

+55 11 99411-3832

Bruna Lima é psicóloga clínica com 5 estrelas no Google. Graduou-se em Psicologia pelo Centro Universitário FMU  e tem 10 anos de experiência em psicologia clínica.

Cadastrada E-psi, atende on-line a brasileiros expatriados há 10 anos.

Possui três especializações/certificações em psicanálise pelas instituições:

Bruna também é colunista no AllPopStuff e tem um canal no YouTube.

Com sua sólida formação, Bruna utiliza abordagens psicanalíticas personalizadas para ajudar cada paciente adulto.

Oferece atendimento online e presencial. Entre em contato para agendar.

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