O BABACA sou eu?
- 18 de fev.
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Babaca é o nome utilizado hoje em dia para alguém que com suas atitudes prejudicou uma pessoa e não se importa com isso. A dessensibilização para com os sentimentos ou bem estar de alguém hoje em dia advém do modelo de vida que vivemos: somos muitos pisando na superfície dessa terra, inúmeros desejos, histórias e visões de mundo.
Ouvindo tantas vozes distintas, tentamos nos guiar moralmente com base em nosso entorno e com base na informação massificada, que muitas vezes podem nos induzir à escolhas não muito boas.
Falando sobre escolhas não muito boas, o babaca é alguém com um desinteresse crônico pelos outros e por isso pode tomar decisões que prejudicam. Todos nós estamos sujeitos a sermos babacas, é como se estivéssemos sempre expostos à possibilidade de cruzarmos a linha que divide o moral do imoral.
Hoje em dia há discussões online sobre a possibilidade de alguém estar sendo babaca ou não, tal a dúvida que paira, "será que eu estou sendo babaca?".

Geralmente quem tem a aflição de ter sido um babaca não, não foi. O babaca é alguém que não sente aflição ou culpa, ele simplesmente não entende que a sua atitude significa alguma coisa. E isso é estar dessensibilizado para com o mal estar do outro.
Em muitos contextos, suspender a sensibilidade não é visto como falha, mas como algo necessário ou normal. Pense nos "rituais" de iniciação que temos ao longo da nossa vida, por exemplo, ao iniciar uma faculdade o “bixo” é exposto ao constrangimento público em nome da integração.
Pode ser um algo que é divertido, uma brincadeira: ser pintado, pedir dinheiro para desconhecidos, raspar o cabelo... tudo depende de como se encara essa passagem e de como ela é conduzida. Nesse ritual a pessoa se dessensibiliza um tanto, passa a enxergar a possibilidade de não se levar tão à serio e fazer amigos que talvez você nunca pensou que teria. O desconforto é relativizado porque cumpre uma função social.
Mas há certos rituais que dessensibilizam a percepção de alguém para com o valor e sentimentos do outro. E estes levam aos caminhos tortuosos das relações desiguais, irresponsáveis e que causam dor.
O babaca atual
Eles tem vários nomes: esquerdomacho, homem performático, boy lixo, redpill. Elas também: girl boss tóxica, feminista performática, mean girl, vítima profissional. São vários. Todos rótulos que tentam capturar cada forma de ser um babaca ou então cada forma de estar dessensibilizado à existência alheia.
A babaquice pode chegar a níveis extremos como o prazer que alguém pode sentir em prejudicar outra pessoa, coisa que assume tons mais psicopáticos.
O curioso é que “babaca” também significa o contrário: não o predador, mas o tolo, o ingênuo, o que não percebe que está sendo usado ou fazendo alguma besteira. A palavra serve tanto para o agressor quanto para a vítima. Isso diz muito sobre nosso tempo: a dessensibilização virou inteligência social, e sentir demais virou motivo de vergonha. E aí entra o discurso da responsabilidade emocional que às vezes é ética real, mas muitas vezes pode cair no lugar de etiqueta psicológica, uma forma sofisticada de parecer humano enquanto se continua indiferente. O babaca atual não é só o que machuca: é o que machuca e ainda se descreve como “maduro”.
A vítima do Babaca
Os babacas não se sensibilizam. Quem dirá se sensibilizar para um mal-estar que nem a própria pessoa que está sendo prejudicada consegue reconhecer com precisão.
Muitas vezes quem sofre sente algo errado, mas não consegue nomear o que foi ultrapassado, quais limites foram invadidos ou se aquilo foi uma violência.
A experiência é difusa, confusa, corporal antes de ser racional. É assim, por exemplo, com meninas que foram abusadas: sentem vergonha, culpa, desconforto, mas ainda podem não ter repertório ou palavras para nomear o que foi aquilo.
O babaca, no entanto, raramente é visto como ameaça. Ele costuma ser percebido como crianção, bobão, chato, egoísta. Um sujeito imaturo, mas inofensivo.
E é justamente aí que se instala um segundo nível de dessensibilização: a dessensibilização ao perigo por parte de quem sofre com um babaca.
Quando o comportamento agressivo é rebaixado a traço infantil ou falha de caráter leve, uma brincadeira que vira violência, deixa de ser reconhecida como violência e passa a ser tolerada, normalizada.
O comportamento Babaca
Distorcer a percepção da outra pessoa para que a sua vontade seja vista como algo bobo ou pudico, para que uma realidade desvalorizada seja enxergada como normal, para que o valor do outro seja entendido como menor, induzir ao erro, etc.
Sadismo: Ter prazer com o sofrimento, vergonha, desconforto, desespero do outro.
Provocação: Criar situações para tirar o outro do sério e depois acusá-lo de descontrole. Instigar, cutucar, fazer “brincadeiras” ofensivas e observar o outro perder a compostura como se isso provasse alguma inferioridade.
Bajulação: Inflar o ego do outro para desarmá-lo. Elogiar não por admiração, mas como técnica de acesso, controle e captura. Fazer o outro baixar a guarda para então pedir usar.
Inversão de culpa: Fazer algo que prejudica e, quando confrontado, transformar a reação do outro no verdadeiro problema. “Você é dramático.” “Você é inseguro.” “Você que entendeu errado.” O dano deixa de ser o ato e passa a ser a sensibilidade do outro.
Deixar de ser sensível e os problemas que surgem disso

A dessensibilização para com pessoas, mulheres, crianças, animais ou o ser humano em geral não surgiu hoje: ela remonta a práticas antigas, como os sacrifícios sumérios e egípcios (pré-2000 a.C.), que afastavam “espíritos malignos” ao culpar vítimas (“ele é o culpado, não eu”) ou desvalorizá-las (“essa criatura não tem valor”). Em tese, era para um bem maior, mas o “bem maior” quase sempre foi o nome elegante dado ao privilégio de alguém.
Em muitos períodos históricos, a morte ou tortura do outro não servia a uma coletividade real, mas à manutenção do poder, à necessidade de um bode expiatório, ao prazer do espetáculo e à reafirmação de hierarquias. Assim como o imperador romano Cômodo, que transformava violência em entretenimento e o sofrimento alheio em prova de autoridade: não se sacrificava para salvar o mundo, sacrificava-se para que pudesse se sentir soberano.
O termo dessensibilização é um conceito psicológico moderno, para os antigos sumérios por exemplo, o ato de não se importar com alguma expressão de vida era completamente normalizado. Sacrifícios eram parte do dia dia, ninguém se questionava. Hoje em dia estamos começando a ter um pouco mais de visão sobre o que seria passar do limite. Essa visão talvez precise ser mais aprimorada, eu sei, mas estamos trabalhando nisso.
E cá estamos hoje em dia discutindo a nossa cegueira em relação ao mal estar do próximo. Depois de escândalos como os do tráfico humano atual, um exemplo grave e grotesco do nível de dessensibilização que podemos alcançar, tentamos ter mais consciência sobre o que faz mal a mim mesmo e ao outro, mas não sem grandes desafios.
Conclusão
Talvez o ponto não seja eliminar os babacas do mundo, mas reconhecer quando estamos atravessando essa linha. A fronteira entre sensibilidade e indiferença é mais tênue do que gostaríamos de admitir. E toda vez que deixamos de nos perguntar sobre o impacto das nossas ações, essa linha se desloca um pouco mais.
Referências
ARENDT, Hannah. Eichmann em Jerusalém: um relato sobre a banalidade do mal. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
BANDURA, Albert. Moral disengagement in the perpetration of inhumanities. Personality and Social Psychology Review, v. 3, n. 3, p. 193–209, 1999.




Esse texto me deu uma sensação incômoda, e isso é um elogio. A parte mais assustadora não é o “babaca óbvio”, o agressivo declarado, é o babaca disfarçado de bobão, de crianção, de “ele é assim mesmo”. A gente normaliza tanto certos comportamentos que quando percebe já está explicando abuso como se fosse traço de personalidade.