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A Odisseia de Nolan: uma análise psicológica do homem contemporâneo

  • há 1 dia
  • 7 min de leitura

Por que um poema de quase três mil anos lota salas de IMAX em 2026? A resposta mais honesta talvez seja incômoda: porque a Odisseia fala de nós. Christopher Nolan colocou na tela um guerreiro tentando voltar para casa, mas quem sai do cinema em silêncio não está pensando em ciclopes. Está pensando na própria vida: no trabalho que não acaba, na culpa que não passa, no caminho de volta que parece nunca chegar.


Neste texto, proponho uma leitura psicológica do filme. Não é uma resenha de cinema, é uma conversa entre o mito e o consultório. Aviso: este texto contém spoilers do filme e da história.


A odisséia é uma metáfora sobre como pode ser difícil olhar para si mesmo e para nossa própria culpa


Odisseu: o homem que trabalha demais e carrega uma culpa


Odisseu é celebrado como o mais astuto dos gregos. Foi dele a ideia do cavalo de Troia, a solução engenhosa que encerrou a guerra. Mas essa solução brilhante custou um massacre. E é aqui que a leitura psicológica começa: Odisseu passa vinte anos longe de casa, dez na guerra e dez perdido no mar, como se precisasse pagar pelo que fez. A jornada dele não é atrasada apenas por tempestades e monstros. É atrasada por uma culpa imensa.



Odisseu é o homem trágico

Quantos homens e mulheres de hoje vivem a mesma travessia? Pessoas que entregaram a "solução engenhosa" que a empresa pedia, que venderam seu talento e sua força de trabalho, e que em algum momento perceberam o impacto daquilo sobre os outros e sobre si mesmas. Pessoas que trabalham sem parar e que, no fundo, sentem que estão pagando por algo. A culpa vira motor e prisão ao mesmo tempo: quanto mais culpado, mais eu trabalho; quanto mais trabalho, mais longe fico de casa, da família, de mim.


Freud, em O mal-estar na civilização, sustentou que o preço do nosso avanço civilizatório é o aumento do sentimento de culpa. Viver em sociedade exige renunciar a impulsos, e essa renúncia cobra juros na forma de uma consciência severa, que Freud chamou de superego. Os deuses da Odisseia funcionam exatamente como esse tribunal interno. Quando Odisseu os desafia, quando age pela astúcia e pelo cálculo atropelando seus próprios valores, o mar inteiro se volta contra ele. Talvez os deuses sejam isso: a consciência que nos lembra de que precisamos agir no mundo de forma intencional, em contato com aquilo em que acreditamos. Quem desobedece a si mesmo não fica impune por dentro.


Os filósofos Theodor Adorno e Max Horkheimer, na Dialética do Esclarecimento, leram Odisseu como o protótipo do sujeito moderno: aquele que sobrevive pela astúcia, pelo autocontrole e pelo cálculo de custo e benefício, dominando a natureza ao redor e a própria natureza interna. Alguma semelhança com o nosso jeitinho brasileiro?


Amarrado ao mastro para ouvir as sereias sem sucumbir, ele antecipa o trabalhador de hoje, que se amarra à cadeira, silencia o desejo e segue produzindo. É, por exemplo, um retrato fiel dos meus pacientes que trabalham com tecnologia: capaz, esforçado, admirado por ser resistente, e por dentro exausto, sem sentir realização, apenas alívio a cada entrega.




"Ninguém": apagar-se para sobreviver



Se desfazer do próprio ego para encontrar o caminho de casa

Diante do ciclope, Odisseu diz que seu nome é Ninguém. O truque salva sua vida, mas o gesto é revelador: para sobreviver, ele renuncia à própria identidade. Adorno e Horkheimer viram nessa cena a imagem do sujeito que precisa se apagar, se moldar e se calar para continuar existindo dentro de um sistema que o esmaga.


No consultório, escuto versões atuais desse truque. O profissional que se pergunta se não seria melhor parar de se importar, abrir mão do ego, virar uma máquina que só executa, tirar a própria alma da jogada e não esquentar mais a cabeça. Funciona por um tempo. Mas quem vira Ninguém para sobreviver descobre, mais cedo ou mais tarde, que sobreviveu ao ciclope e se perdeu de si.




Telêmaco: o jovem sem ninguém para guiá-lo



Telêmaco a procura de uma referencia

Telêmaco cresceu sem o pai. Chega à vida adulta cercado de homens que só consomem, os pretendentes que devoram a casa, e sem nenhuma figura que o ensine a ser quem ele precisa se tornar. Ele parte, então, em busca de notícias do pai. No fundo, parte em busca de um mestre.


É impossível não pensar nos jovens profissionais de hoje. Saem da faculdade e entram em empresas onde todos estão ocupados demais para ensinar, inclusive a pessoa que mais sabe e que deveria transmitir o ofício.


Não há ciência, não há história, não há transmissão: há apenas execução. O sentimento é o de estar perdido, sem ajuda, tendo que se inventar sozinho. A busca de Telêmaco é a busca de toda uma geração por alguém que diga: venha, eu te mostro o caminho. Quando essa figura não existe no trabalho, a angústia aparece, e muitas vezes é ela que traz o jovem à terapia.




Circe: o feitiço que transforma pessoas em porcos



A feiticeira circe é uma metáfora para o gaslight e a manipulação psicológica

Circe é a feiticeira que recebe os companheiros de Odisseu com banquete e encanto, e depois os transforma em porcos. É uma das imagens mais precisas que o mito nos oferece sobre certas relações: aquelas que começam com sedução e terminam em desumanização.


Na psicologia, esse feitiço tem nomes atuais: relações com traços narcisistas e dinâmicas de gaslighting, em que uma pessoa vai minando a percepção da outra até que ela duvide da própria realidade. A vítima entra inteira na relação e, aos poucos, vai sendo rebaixada, animalizada, reduzida.


O mais difícil é que, como na ilha de Circe, há prazer e conforto misturados à prisão: sair exige perceber o feitiço, e perceber o feitiço exige ajuda de fora. No mito, Odisseu só resiste porque recebe de Hermes um antídoto antes de entrar. Na vida, esse antídoto costuma ser uma escuta externa, alguém que ajude a pessoa a reconhecer o que está acontecendo, uma testemunha, muitas vezes acompanhado do manejo da culpa que a manipulação produz.




Penélope: a vida em suspenso



Penélope traduz a vida de alguns de nós em que há espera eterna

Enquanto Odisseu vaga, Penélope espera. Tece de dia e desfaz à noite a mortalha do sogro, adiando um desfecho que não quer, enquanto os pretendentes devoram sua casa e pressionam por um novo casamento. No filme, é ela quem arma o desenlace: propõe a prova do arco, que só o verdadeiro Odisseu conseguiria vencer.


Sua guerra é silenciosa: viver vinte anos em compasso de espera, sem poder descansar nem decidir. Muitas vidas chegam à análise assim, suspensas, aguardando o resultado, a convocação, o retorno de algo ou de alguém para que a vida enfim comece. A espera também adoece, e também merece cuidado.




Nostos: a terapia como caminho de volta para casa



Voltar para casa é entrar em contato com quem realmente se é

E o retorno não é um final feliz simples. Odisseu chega a Ítaca disfarçado de mendigo, irreconhecível: só o velho cão Argos, que o esperou por vinte anos, o reconhece de imediato, e morre logo depois desse reencontro. Para retomar seu lugar, Odisseu ainda precisa massacrar os pretendentes no salão do palácio. Ou seja, o homem que passou vinte anos pagando pela violência do cavalo de Troia só consegue voltar para casa por meio de mais um banho de sangue. O mito é honesto: não existe volta sem confronto, e o que negamos em nós cobra passagem na porta de casa.


Os gregos tinham uma palavra para o desejo de retornar ao lar: nostos, raiz da nossa nostalgia. O que a Odisseia de Nolan nos lembra, com sua força visual, é que o caminho de volta não é geográfico. Odisseu não precisa apenas atravessar o mar; precisa atravessar a culpa, os vícios, o engano, o próprio orgulho, para poder voltar a ser marido, pai e rei. Voltar para casa é voltar para si.


A psicoterapia é, em certo sentido, esse trabalho de nostos. Um espaço para examinar a culpa que não deixa você chegar, os feitiços em que você se prendeu, o nome que você apagou para sobreviver. Se você se reconheceu em Odisseu, em Telêmaco ou em Penélope, talvez seja hora de começar a sua travessia de volta. Sou psicóloga, atendo online e presencialmente em São Paulo, com atenção especial a pessoas atravessando experiências difíceis e traumáticas.



O que é a Odisseia de Homero: definição, contexto e personagens


Antes de mergulhar no filme, vale situar a obra. A Odisseia é um poema épico atribuído a Homero, composto na Grécia por volta do século VIII a.C. Em 24 cantos, narra o retorno de Odisseu (Ulisses, para os romanos), rei de Ítaca, após a Guerra de Troia contada na Ilíada. Tão forte é essa história que a palavra odisseia entrou no dicionário como sinônimo de jornada longa, cheia de provações e aventuras. O contexto histórico é o da tradição oral grega: o poema foi cantado por gerações antes de ser escrito, e retrata os valores do mundo homérico, como a hospitalidade, a honra, a astúcia e o temor aos deuses.


Os personagens principais são Odisseu, o herói astuto que quer voltar para casa; Penélope, sua esposa, que resiste vinte anos aos pretendentes; Telêmaco, o filho que cresce sem pai; Atena, a deusa que o protege; Poseidon, o deus que o persegue; e as figuras do caminho: o ciclope Polifemo, a feiticeira Circe, a ninfa Calipso e as sereias.



Simbologia e temas da Odisseia


A simbologia do poema é inesgotável, e é dela que a psicologia se alimenta. O mar simboliza o inconsciente e as forças que não controlamos; Ítaca, o lar e o si mesmo a que buscamos retornar; as sereias, os desejos que seduzem e destroem; o ciclope, a força bruta que só a inteligência vence; a tecelagem de Penélope, o tempo da espera e da resistência silenciosa. Entre os temas e padrões centrais estão o retorno (nostos), a astúcia contra a força, a lealdade, a identidade e a memória, o preço da desmesura (hybris) e a tensão permanente entre o desejo dos homens e a vontade dos deuses.



A moral da Odisseia: lições psicológicas do retorno


Se a Ilíada pergunta como se conquista a glória, a Odisseia pergunta algo mais maduro: como se volta para casa depois de tudo. Sua moral pode ser resumida assim: a inteligência vale mais que a força, mas nem a inteligência escapa das consequências dos próprios atos; quem desafia os deuses, ou seja, quem atropela os próprios valores, paga um preço; e a verdadeira vitória não é vencer a guerra, é conseguir retornar inteiro para aquilo que importa. É essa moral, profundamente psicológica, que o filme de Nolan traduz para a nossa época e que vamos explorar agora.


Referências mencionadas: Homero, Odisseia; Sigmund Freud, O mal-estar na civilização (1930); Theodor Adorno e Max Horkheimer, Dialética do Esclarecimento (1947); A Odisseia (2026), direção de Christopher Nolan.

Psicóloga Bruna Lima

CRP 06/130409

Bruna Lima Psicóloga Clínica

Psicblima@gmail.com

+55 11 99411-3832

Bruna Lima é psicóloga clínica com 5 estrelas no Google. Graduou-se em Psicologia pelo Centro Universitário FMU  e tem 10 anos de experiência em psicologia clínica.

Cadastrada E-psi, atende on-line a brasileiros expatriados há 10 anos.

Possui três especializações/certificações em psicanálise pelas instituições:

Bruna também é colunista no AllPopStuff e tem um canal no YouTube.

Com sua sólida formação, Bruna utiliza abordagens psicanalíticas personalizadas para ajudar cada paciente adulto.

Oferece atendimento online e presencial. Entre em contato para agendar.

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