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O dev e os profissionais de TI

Um homem que trabalha com tecnologia

Quando o trabalho não deixa trabalhar


Essa é a minha visão como psicóloga. Ele é bom no que faz. Talvez seja essa a primeira coisa a dizer sobre os desenvolvedore, engenheiros e sobre tantos profissionais de TI.


E isso acaba sendo a primeira coisa que se perde de vista, inclusive para eles mesmos. São pessoas capazes, que gostam do que fazem. Gostam do desafio, do estímulo, da sensação de resolver um problema difícil. E, no entanto, chegam ao fim do dia com a impressão desconcertante de não terem conseguido fazer absolutamente nada.

Uma dinâmica de trabalho que impede pensar

As ligações chegam, os e-mails chegam, as mensagens chegam. Cada uma delas corta o fio do pensamento no meio. O desenvolvedor recomeça, é interrompido, recomeça de novo. Em certas horas do dia, ou quando precisa falar com alguém, dá branco: o nervosismo sobe, a ansiedade aperta. Alguns chegam à beira de uma explosão.


Há tarefas que não são óbvias. Elas pediriam tempo para entender, pensar, matuta, aquele tempo lento em que o trabalho intelectual de fato acontece. Mas na maioria das empresas de tecnologia esse tempo não existe. E quando o profissional tenta tomá-lo para si, gastar uma hora aprendendo algo que precisaria aprender, vem a culpa: "não estou executando". 


Cria-se assim uma posição de trabalho em que não se faz ciência nenhuma, não se constrói história nenhuma. São apenas máquinas executando. Todos estão ocupados, inclusive a pessoa que sabe mais e que deveria ensinar. O sentimento é o de estar perdido, sem ajuda: um Atlas carregando o peso do mundo sozinho.


Curiosamente, a pressão nem vem de um chefe, da matriz na América Latina ou de Singapura. Ela vem de outro lugar: de uma pilha infinita de demandas que só aumenta. Não há tempo, o dia é exaustivo, e ele salta de tarefa em tarefa como quem apaga incêndios que reacendem sozinhos. Um paciente cunhou uma expressão que resume tudo: o cemitério do esforço. É ali que o trabalho vai sendo enterrado, dia após dia, sem lápide e sem memória.



Cheio de tarefas, vazio de sentido


O sociólogo sueco Roland Paulsen ficou conhecido por estudar o que chamou de trabalho vazio (Empty Labor): as horas em que as pessoas estão no trabalho sem trabalhar. Mas a contribuição mais incômoda de Paulsen talvez seja outra: a de mostrar que boa parte do trabalho contemporâneo se esvaziou de sentido, que a atividade frenética pode conviver perfeitamente com a ausência de propósito, e que passamos a simular produtividade para sustentar a fé moderna de que trabalhar é, por si só, uma virtude.


O desenvolvedor soterrado de demandas vive o avesso exato do trabalhador ocioso de Paulsen e, no entanto, chega ao mesmo lugar. Ele não tem duas horas livres por dia; não tem sequer dois minutos. Mas o seu dia transbordante produz o mesmo vazio que Paulsen encontrou nos escritórios ociosos. 


Porque o vazio, aqui, não é a falta de tarefa: é a falta de sentido na tarefa. Um dia inteiramente preenchido pode ser um dia inteiramente vazio. Paulsen nos ajuda a nomear esse paradoxo: o problema do trabalho em tecnologia não é apenas quanto se trabalha, mas o que sobra de humano no que se faz.



Sísifo com crachá


O que esse profissional quer, no fundo, é simples: fazer um bom trabalho. Que as coisas não deem erro. Entregar o seu melhor e receber, em troca, alguma validação, alguma visibilidade, a confirmação de que aquilo que ele faz existe para alguém. O que ele recebe é um tapinha nas costas e um par de elogios que soam quase como diagnósticos: resistente, esforçado.


Elogios que celebram a capacidade de aguentar, não a capacidade de criar. E por trás disso mora um medo que raramente é dito em voz alta: o medo de estar vivendo a história de Sísifo, o de empurrar a pedra montanha acima todos os dias para vê-la rolar de volta todas as noites. Não à toa, o que o desenvolvedor sente ao entregar uma tarefa não é realização pessoal nem profissional. É apenas alívio. E alívio não constrói uma vida; alívio apenas interrompe, por instantes, um sofrimento.

A tentação de virar máquina

Chega então a pergunta que os profissionais de TI trazem para a análise: como me sentir melhor nesse ambiente de trabalho? E, junto dela, uma fantasia sedutora: e se eu simplesmente não ligasse? Se me dissolvesse no todo, abrisse mão do ego e me reconhecesse como máquina? Não me importar com a qualidade, apenas fluir na onda das demandas. Ser uma espécie de "médium" do trabalho: emprestar as mãos e tirar a própria alma da jogada.


É uma solução tentadora porque promete o fim da dor. Se não há sujeito, não há sofrimento. Mas há um preço escondido nesse contrato: quem tira a alma da jogada não sofre menos, sofre de outro jeito. Fica descaracterizado. E o que dói nesse profissional é justamente o que há de mais vivo nele: o gosto pelo desafio, o desejo de fazer bem feito, a vontade de que seu esforço deixe alguma marca. Anestesiar isso é curar a doença matando o paciente.

O que a psicanálise tem a ver com isso

Sou psicóloga para profissionais de tecnologia e acho que não cabe à psicologia ensinar técnicas de produtividade nem convencer ninguém a "ressignificar" um ambiente adoecedor. Mas há um trabalho que só pode ser feito no singular: separar o que é a pilha infinita de demandas do que é a relação de cada um com essa pilha. Por que a culpa aparece justamente na hora de aprender? De quem, exatamente, se espera a validação que nunca vem? Que história antiga se repete nesse esforço de carregar o mundo sozinho, sem pedir ajuda?


O desenvolvedor costuma descobrir, no divã, que a pedra de Sísifo tem duas partes: uma que a empresa coloca sobre seus ombros, e outra que ele mesmo acrescenta, feita de exigência, de medo de decepcionar, de um pedido de amor endereçado a quem não pode responder. Sobre a primeira parte, muitas vezes só é possível decidir: negociar limites, mudar de ambiente, recusar o insustentável. Sobre a segunda, é possível trabalhar. E é aí que algo se desenterra do cemitério do esforço: não a produtividade, mas o sujeito.


Se você trabalha com tecnologia e se reconheceu nessas linhas, talvez a pergunta não seja mais "como aguentar melhor?", e sim outra, mais fértil: o que do meu desejo ficou soterrado - e como escavá-lo de volta? 

Olá

Meu nome é Bruna

Sou Bruna Lima, psicóloga clínica, com atuação em psicoterapia psicanalítica para adultos. Atendo pessoas que sentem angústia persistente, repetições emocionais, vazio ou sofrimento difuso que não se resolve apenas com técnicas de controle de sintomas.

Meu trabalho é orientado pela psicanálise (Bion, Klein, Ferenczi, Bollas) e por uma escuta clínica cuidadosa, que ajuda a dar forma psíquica ao que ainda não tem nome, diferenciando ansiedade comum de conflitos emocionais mais profundos.

Atendo na Av. Paulista  com possibilidade de atendimento presencial e online, oferecendo um espaço ético, seguro e contínuo para quem busca compreensão, elaboração emocional e transformação psíquica.

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29 de julho de 2026 às 16:54:03

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