CANSADO? O que é DESCANÇAR, o conhecimento que está sendo perdido
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Descansar é permitir que o corpo ou a mente suspenda a resposta contínua à demanda do que está acontecendo ao redor, saia do loop e se reorganize.
Mas a idéia de descansar, hoje, virou algo quase exótico. A exaustão se tornou o novo fundo musical da vida contemporânea, e isso não é só um sintoma do excesso, é também um sinal de que perdemos o conhecimento do que é próprio cansaço.
Dados epidemiológicos indicam que o cansaço tornou-se experiência massiva: estudos populacionais mostram que mais de 30% dos adultos relatam fadiga persistente (European Journal of Public Health), e a Organização Mundial da Saúde apontou um aumento global de cerca de 25% na sensação de exaustão após a pandemia.

No campo do trabalho, levantamentos internacionais mostram que a maioria dos trabalhadores está exposta a múltiplos fatores de risco para fadiga, sugerindo que o cansaço contemporâneo está menos ligado ao esforço físico isolado e mais à sobrecarga psíquica contínua (OMS; estudos ocupacionais internacionais).
A exaustão como paisagem
O cansaço talvez não seja mais reconhecido. O Burnout é o nome que se dá para situações assim. Vivemos em um momento em que o corpo já não precisa mover pedras de toneladas, como as civilizações antigas, mas a mente carrega diariamente uma avalanche de informações, demandas e expectativas.
Byung-Chul Han, em "Sociedade do Cansaço", observa que o sujeito contemporâneo não é mais o explorado, mas o explorador de si mesmo. O resultado é um cansaço difuso, quase invisível, que vai além da fadiga física e atravessa o campo psíquico, correndo o risco de ser confundido com inércia, desinteresse, ou até mesmo falha moral.
Já a sensação de alívio, aquele prazer leve e silencioso, quase sem bordas, tornou-se rara. O descanso, ao contrário do que muitos supõem, não se alcança apenas pelo sono ou pelo ócio, inclusive o sono e o ócio podem ser agitados e ecoar estresse. Descansar é, sobretudo, quebrar um loop mental e se conduzir à um lugar interno novo não ameaçador. Ao descansar os ruídos do mundo perdem intensidade e o corpo pode, mesmo que por instantes, abandonar as defesas.
Nessa sociedade que celebra o êxtase, a diversão intensa e os estímulos constantes, o descanso parece desinteressante, quase obsoleto. Mas o êxtase também cansa, e talvez, por isso, estejamos mais insensíveis ao prazer sutil do repouso.
O que é descansar?

A pergunta pode soar ingênua. No entanto, há algo de urgente em resgatar o óbvio: descansar se reconectar com uma visão mais ampla das coisas, ocupar um ponto de vista mais afastado, estar desprendido da demanda que estreita a visão. Eu, como psicóloga, percebo que muitos pacientes chegam ao consultório esgotados, mas nomeando esgotamentos com outros nomes como: ansiedade, depressão, baixa auto estima, etc.
O descanso autêntico não é ausência de atividade, mas presença de alívio. É um estado marcado por suavidade, onde não se exige nada de si além do necessário para simplesmente estar.
Não é um vazio dramático, e sim uma pausa astuta de um loop mental que pode estar rolando ha muito tempo, o que permite reorganizar as experiências internas, bem como o sono e o sonho fazem. O contato com esse estado pode ser frágil nos dias de hoje. Muitas vezes, só o reconhecemos quando ele já se perdeu. E, ainda assim, há uma nostalgia coletiva em relação a formas antigas de repouso, como se tivéssemos testemunhado o desaparecimento de uma sabedoria ancestral.
De fato, a sociedade atual, ao privilegiar o impacto emocional e a busca incessante por novas experiências, deixa pouco espaço para o prazer leve. O bem estar tranquilo, sem fogos de artifício, se eclipsa na promessa de felicidade instantânea e, assim, perde seu valor de utilidade.
Diversão ou descanso?
O paradoxo do prazer na era do excesso A diversão de alta voltagem emocional, tão celebrada, acaba produzindo um novo tipo de cansaço: o que advém do excesso de estímulo que dura até cair e imediatamente dormir. Pergunto: será que estamos mesmo mais insensíveis, ou apenas mais acostumados ao ruído?
O prazer leve, que nasce do repouso genuíno, tornou-se quase imperceptível diante da avalanche de sensações intensas. Afinal, quanto mais buscamos o êxtase, mais distante ficamos desse alívio discreto e restaurador.
Como reabilitar o descanso: ensaios práticos para recuperar o conhecimento perdido
Descansar, hoje, exige certa rebeldia. Reabilitar o repouso implica buscar experiências internas que não estejam saturadas de propósito ou obrigação. Práticas simples, como estar em silêncio, contemplar algo novo sem urgência, ou permitir-se não responder imediatamente a estímulos, podem reabrir o caminho para esse estado mental.

Achei interessante (nem todos acham) um exercício que a artista performática Marina Abramović propõe em seu curso: pegue uma cadeira, a coloque de frente para uma parede completamente branca, se sente e a contemple por quanto tempo você conseguir. Para a mente acessar um lugar novo ou de descanso é necessário um "tranco" com uma coisa completamente nova e talvez até estranha para nós.
Não se trata de receitas rápidas. É preciso reaprender a reconhecer o próprio limite, aprender como o cansaço faz sentir no corpo e na mente, e experimentar romper com esse loop. Ao romper, pode se sentir uma estranheza do vazio, mas segure firme!
O convite é: experimente a novidade não como fuga, mas como possibilidade de encontrar um lugar interno diferente, onde o descanso não precise ser justificado: eu parei agora por que sim, por que eu quis, por que eu preciso e não continuar fazendo o que eu estava fazendo não define quem eu sou.
A mente, assim como o corpo, precisa de pausas que não sejam preenchidas pelo produtivismo ou pelo espetáculo. Descansar é, antes de tudo, recuperar o conhecimento de si mesmo, permitindo que o alívio reencontre espaço em meio à saturação do cotidiano.
O cansaço de hoje é diferente do passado?
Sim, não apenas em intensidade, mas em qualidade. Antes, o cansaço era sinal de esforço físico; hoje, ele é mais associado à sobrecarga mental e à dificuldade de "desligar" a mente.
Como saber se estou realmente descansando?
Se ao final de uma pausa há alívio, não há peso para respirar, há uma sensação de reorganização interna. A Reorganização interna é uma sensação de como se todos os elementos mentais estivessem sido reorganizados, se houvesse uma prateleira mental, o a sensação é que tudo está no lugar que deve estar. Além disso, parece que o tamanho das angustias, tarefas e entregas não são mais gigantes.
Provavelmente você experimentou descanso ao longo da sua história. Se há inquietação, urgência ou desejo de mais estímulo, é um belo sinal de que você precisa descansar.
Referências
World Health Organization (WHO). Mental health and COVID-19: early evidence of the pandemic’s impact. WHO, 2022.
European Journal of Public Health. Estudos populacionais sobre prevalência de fadiga na população adulta (ex.: suplementos epidemiológicos 2022–2023).
Maslach, C.; Leiter, M. Burnout: The Cost of Caring. Malor Books.
Han, Byung-Chul. Sociedade do Cansaço. Vozes.












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