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Pássaro coberto de óleo, imóvel e vulnerável, imagem de um ambiente contaminado onde sobreviver exige esforço extremo, ilustrando situações em que resistir não significa estar saud�ável.

Resiliência: um conceito que merece desconfiança clínica

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No discurso contemporâneo, resiliência costuma ser celebrada como virtude universal. Na clínica, porém, ela exige cautela. Nem toda capacidade de suportar indica saúde psíquica. Em certos contextos, insistir é apenas continuar exposto a algo que já ultrapassou o limite do suportável.


Aqui, resiliência não é tomada como força em si, mas como um modo de relação com a dor, o limite e a desistência, que pode tanto proteger quanto destruir.


Resiliência e adaptação ao que adoece

Na clínica, é comum encontrar pessoas altamente resilientes que, na verdade, desenvolveram uma capacidade sofisticada de fazer eco, ou então, de se relacionar com o mundo se deixando de fora. Aprenderam cedo que sobreviver exigia adaptação constante: entender o clima do outro, antecipar demandas, suportar frustrações silenciosamente. Essa forma de resiliência não nasce do eu, mas da necessidade de não perder o vínculo.


Há contextos em que a resiliência não expressa maturidade, mas adesão a uma narrativa ou idéia. Algo se apresenta como bom, normal ou necessário (um trabalho, uma relação, um projeto de vida) e o sujeito permanece não porque faz sentido, mas porque aprendeu que desistir é perder. A resiliência, então, não sustenta o eu: sustenta a narrativa.


O problema é que a adaptação excessiva cobra um preço psíquico alto. O sujeito até “aguenta”, mas perde acesso ao próprio desejo, à espontaneidade e à capacidade de discriminar o que lhe faz bem. A resiliência passa a funcionar como manutenção de um funcionamento antigo, não como crescimento. O sofrimento aparece de forma difusa: cansaço crônico, vazio, irritação sem causa aparente, sensação de estar vivendo a vida errada.


Aqui, desistir não significa colapso, mas interromper um padrão de sobrevivência que já não faz sentido.

O jogo de ganhar e a ilusão de sentido

Há sujeitos profundamente capturados pela ideia de que atingir, conquistar e ganhar. Metas, performance, superação e reconhecimento passam a organizar a vida psíquica. A resiliência, nesse contexto, não está a serviço do desejo, mas do jogo. Insiste-se não porque algo é vivo, mas porque parar significaria reconhecer que o jogo nunca foi real.


Esse tipo de resiliência é comum em funcionamentos obsessivos e compulsivos. Ela oferece um esconderijo: enquanto se aguenta, não é preciso perguntar se aquilo vale a pena, ocupa a mente e a vida e nos transporta para um lugar longe do próprio desejo, decisões e responsabilidades. O sofrimento é racionalizado, romantizado ou transformado em prova de caráter. A desistência aparece como fracasso moral, não como lucidez.


A resiliência, aqui, protege o vício na conquista e na repetição, não o eu.

Quando a resiliência leva ao lugar errado

Existe um ponto em que o “eu não aguento mais” não é colapso, mas despertar. Isso pode acontecer em histórias em que felizmente a pessoa consegue voltar a olhar para si e se proteger. Ele surge quando a narrativa resiliente se esgota e já não consegue encobrir o custo psíquico da insistência. O corpo falha, o sentido desaparece, a vida empobrece.


Dependendo da história que o sujeito conta a si mesmo, a resiliência pode conduzir exatamente ao oposto do que internamente se deseja ou se precisa: perda de vitalidade, empobrecimento do desejo, destruição silenciosa do eu. Nem toda continuidade é crescimento. Nem toda desistência é perda.


Em muitos casos, desistir é sair de um jogo que nunca foi sobre viver, mas apenas sobre aguentar e o aguentar talvez tivesse um sentido positivo. Na clínica, esse gesto marca uma virada ética: deixar de ser fiel ao ideal e começar a ser fiel a si.

Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos as alturas. Para voar é preciso amar o vazio. Porque o voo só acontece se houver o vazio. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Os homens querem voar, mas temem o vazio. Não podem viver sem certezas. Por isso trocam o voo por gaiolas. As gaiolas são o lugar onde as certezas moram.

👩‍⚕️ Sobre a autora

Bruna Lima é psicóloga clínica (CRP 06/130409), formada pela FMU, com certificação pelo Instituto Sedes Sapientiae e Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo. Atua há mais de 10 anos com atendimento clínico com adultos em atendimentos online e presenciais em São Paulo (Av. Paulista). Seu trabalho é voltado à compreensão dos conflitos psíquicos que atravessam a experiência cotidiana, oferecendo uma leitura clínica de sofrimentos difusos, padrões emocionais repetitivos e impasses subjetivos, a partir da escuta psicanalítica e da elaboração simbólica no processo terapêutico.

Referências Bibliográficas

  • BOLLAS, C. The Shadow of the Object: Psychoanalysis of the Unthought Known. London: Free Association Books, 1987.

  • WINNICOTT, D. W. O verdadeiro e o falso self. In: O ambiente e os processos de maturação. Porto Alegre: Artmed, 1983.

  • KLEIN, M. Inveja e gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

  • FERENCZI, S. Confusão de línguas entre os adultos e a criança. In: Psicanálise IV. São Paulo: Martins Fontes, 1992.

  • BION, W. R. Aprender com a experiência. Rio de Janeiro: Imago, 1991.

  • COSTA, J. F. Violência e psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 2003.

  • MILLER, A. O drama da criança bem-dotada. São Paulo: Martins Fontes, 1983.

Disclaimer

Os conteúdos das páginas de /autoconhecimento/ têm caráter informativo e reflexivo. Eles não substituem avaliação psicológica, diagnóstico clínico ou acompanhamento terapêutico. As descrições apresentadas buscam ampliar a compreensão de modos de funcionamento psíquico e sofrimentos emocionais comuns, sem a pretensão de rotular ou enquadrar experiências singulares. Cada sujeito possui uma história própria, que só pode ser compreendida em profundidade no contexto de um processo clínico.

    13 de janeiro de 2026 às 16:38:57

Created date:

    13 de janeiro de 2026 às 17:03:34

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