• Bruna Lima

COMO O BRASILEIRO SE SENTE MORANDO NA ALEMANHA?

Atualizado: 25 de abr.

Para ao Brasileiro, a experiência de morar na Alemanha pode ser bem incomum. A entrada de brasileiros na Alemanha agora é permitida. As pessoas devem estar totalmente vacinadas e assim podem entrar no país. Então o que eles podem falar sobre as experiências que estão tendo?


Os cheiros, os sons, o jeitão das pessoas e as paisagens são bem diferentes ao que o brasileiro está habituado. Neste artigo iremos falar sobre a experiência emocional e psicológica do brasileiro que mora na Alemanha.

Como todo expatriado, o brasileiro que vai morar no exterior sofre com questões como saudade de casa, se sentir uma versão menos efetiva de si mesmo, insegurança, medo do novo, etc. E ele também se empolga e vive alegrias como a conquista de estar em outro país, a aventura emocionante, a aprendizagem e por aí vai.

Mas se falarmos especificamente da experiência do brasileiro morando na Alemanha, descobrimos que existem coisas bem características referentes aos sofrimentos e as alegrias de quem vive esta experiência lá. Vamos falar sobre elas.


Os brasileiros podem entrar no país. Trabalhar na Alemanha e estudar na Alemanha é novamente possível.


No meio do povo

Imagine você desembarcar em um novo lugar e entrar em contato com uma cena diferente acontecendo. Éder Luiz, residente há 10 anos no país, conta que quando colocou os pés em solo Alemão percebeu o quão silencioso é o lugar.

A vida está acontecendo ao redor, mas diferença em termos de decibéis é gritante: "Me lembro de pensar comigo, todos os dias se parecem domingo aqui. É como se tudo estivesse vazio". Estamos tão acostumados ao barulho intenso, carros, vozes, música alta, é fácil estranhar.

Marcos, que mora em Hamburgo desde agosto de 2021, percebe a massa de pessoas ao redor como nitidamente diferenciada. Os estrangeiros (chineses, russos, ucranianos, etc) vão à Alemanha com o objetivo de trabalhar intensamente e por longas horas. Ele conta que sente a diferença entre os Alemães e os trabalhadores chamados "os invisíveis". Uma distância respeitosa é mantida.

Já Éder relata sentir a sua vizinhança como igualitária e diversa. "Não sinto a diferença social ao redor. No mesmo bairro podem ser encontradas pessoas de classes sociais e profissões muito diversificadas".


Ele foi viver na Alemanha por conta de sua atual esposa que é Alemã. Conta que o ritmo de vida é bem mais calmo, os eventos sociais são planejados com muita antecedência e sem pressão.

Além disso a cidade funciona como um relógio suíço, as engrenagens funcionam de forma perfeita aparentemente. Os horários dos transportes públicos são cumpridos com precisão, o trânsito é regrado, existe segurança e o respeito e educação são constantes.

  • É difícil: A classe operária sente que há distancia entre os nativos e os estrangeiros, há certo ressentimento em relação à isso: "somos os geradores de riquezas do país" diz Marcos. Desse modo se torna um pouco emocionalmente custoso conviver com os Alemães, o sentimento de disparidade (inclusive com a língua) entre os habitantes pode provocar no Brasileiro um algo de desvalor. Éder diz que no começo da sua estadia quando ainda não se sentia pertencente ao lugar, sentiu de uma forma marcada a distância dos Alemães. Hoje percebe que os Alemães mantem certa distância para evitar algum tipo de constrangimento de ambas as partes durante uma possível interação.

  • É muito bom: O país oferece empregos, há sempre oportunidade de trabalho, a mão de obra é constantemente requisitada por conta da manutenção dessa grande engrenagem. Nos negócios os Alemães tendem a ser corretos e regrados, o que reforça o senso de confiança e estabilidade na vida do brasileiro. Também pode ser emocionalmente estabilizador viver em um ambiente onde não há grandes desvios ou surpresas ao longo dos dias. A vida corre de um jeito mais calmo e regular.

"Os Alemães são pessoas bem institucionalizadas. Estão acostumados à regras e normas" diz Marcos.


Estar com as pessoas, amizades e vida social

A experiência de contato social com os Alemães que Hiuly, que mora em Göttingen, teve a fez defini-los como simpáticos e retraídos, pessoas que aparentemente não querem incomodar. Ela é enfermeira e migrou para a Alemanha por conta de uma boa proposta para trabalhar na sua área. Ela diz "A única forma de expor quem nós somos é pela palavra", e no começo da experiência de morar fora as palavras podem faltar.

Para construir amizades é preciso ter um tanto de segurança sobre si mesmo e domínio para comunicar seus pensamentos e emoções. Éder por exemplo diz que foi um baque quando começou a participar de grupos sociais com os nativos "Não conseguia fazer nem uma piada, tudo o que eu sabia de mim era sobre o Éder que vivia no Brasil e esse conhecimento não era útil estando na Alemanha".

Hiuly tem a mesma opinião "A gente não consegue nem se defender em uma interação com os Alemães, ainda não há um repertório pra isso. Enquanto que no Brasil eu já sabia perfeitamente como conduzir determinadas situações sociais".

Mas nem tudo é sofrimento no contato próximo com os nativos. Éder conta que após 10 anos de residência no país, aprecia o estilo das relações Alemãs: "Os Alemães não são disponíveis emocionalmente em um primeiro momento como os Brasileiros são. A construção de uma amizade se dá de uma forma lenta e gradual, o que dá uma base para que ela seja forte e profunda."

Diz ele que "É um mito a questão de que o Alemão é um povo incapaz de ter sentimentos. Quando o nativo confia e gosta de você eles podem ser amigos muito afetuosos. Quando meu filho nasceu lembro que uma vizinha trouxe algumas flores do jardim em um sinal de afeição e carinho."

Éder conta também que o modo de demonstrar sentimentos fraternais não são os mesmos do Brasil. "No Brasil a gente recebe uma visita com uma mesa farta, faz sala... aqui é mais simples e desafetado. Os amigos vêm pela simples oportunidade de estar na presença do outro, bater um papo descompromissado, beber algo..."

Ele conta que até estranhou o comportamento deles de início, era como se não retornassem os esforços fraternos que ele investia. Mas depois percebeu que os esforços retornavam sim, apenas não na mesma moeda.

Como disse Denilson Caldeiron na rede social "Alguns buscam praias lindas, verões intensos, churrasco na calçada com vizinhos socializando, festas em apartamentos noite a dentro, beijos e abraços como sinal de afeto e acabam infelizes aqui na Alemanha, o que entendo. Mas sigo muito feliz por aqui após 12 anos."


  • É difícil: A dança da socialização é diferente no sentido de que não se torna amigo do dia para a noite por aqui. Parece que poucos processos costumam ser espontâneos por lá. É preciso certo esforço e constância para que amizades genuínas possam florecer. Outra questão é a de que os Alemães (e os europeus em geral) são pessoas de comunicação muito direta. Os brasileiros geralmente estranham por que podem estar acostumados com um ritual mais acolhedor ao entrar em contato com o outro socialmente.

  • É muito bom: O tipo de afeto experimentado com amigos alemães é diferente em qualidade mas pode ser muito interessante. Talvez o Brasileiro, paradoxalmente, não crie relações tão profundas por conta da intensidade emocional com que vive as relações. Os alemães parecem ser criaturas estáveis e dispostas a conviver com alguém do jeito que ele, ela ou elu é. E esta amizade tem grandes chances de ser profunda se o amigo brasileiro está disposto a ir com calma e ser verdadeiro.

"Sinto que o Alemão não espera nada de você num sentido transacional. Se ele é seu amigo é simplesmente por que gosta de você" diz Éder.


Quais transformações a Alemanha provoca em um brasileiro?


Hiuly é residente Alemã há 5 meses e conta que o período tem sido uma grande aventura cheia de alegrias e receios: "No inicio me senti cansada, curiosa e com medo. Mas conforme fui entendendo e absorvendo os costumes consegui me sentir mais relaxada" diz ela.

Éder que mora na Alemanha há anos diz que a experiência o modificou no sentido de que hoje se vê bem mais cauteloso e cuidadoso com as relações, o estilo Alemão de conviver fez bastante sentido para ele.

E se eu puder dizer algo sobre o que essas conversas agradáveis que tive com os residentes me deram a impressão seria:


  • Humildade: Todo o Brasileiro que tem a experiência de morar fora do país experimenta o choque entre culturas e percebe que não existe apenas uma maneira de se viver.

  • Sensação de estrutura: O aspecto bom das regras é que elas podem deixar a convivência em uma experiência de exposição menor de quem se é, não dá espaço a grandes intrigas e mal entendidos. Sendo assim pode ser um bom ambiente para pessoas que viveram invasões emocionais e sofreram com isso.

  • Rebeldia: Se as normas e regras forem algo insuportável para quem migra, a experiência pode ser de sofrimento e busca infrutífera por afirmação própria.

  • Aprender a ser mais indivíduo: É comum a experiência de viver no Brasil ser um tanto "coletiva" por assim dizer. Quando a responsabilidade por sentimentos e reveses ou mesmo alegrias passa a ser depositada em um outro podemos nos perder em uma narrativa de "destino desfavorável", "a culpa é dele, não minha", "ela é tudo o que eu tenho na vida". Quando se vive a experiência de ter responsabilidade pelas suas palavras, atitudes e emoções (por mais difícil que seja) podemos aprender a ter mais autonomia e sermos mais autênticos.

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