QUANDO VOLTAR PARA O BRASIL: a decisão que não se resolve com planilha financeira
- 19 de jan.
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Atualizado: há 6 dias
Para o brasileiro expatriado, voltar é sempre uma possibilidade incômoda, até porque nenhum cálculo racional sobre segurança e estabilidade consegue dar conta do que pulsa por baixo da decisão. A vida do expatriado é feita de revisões constantes do idioma à identidade, dos afetos ao modo de ocupar o próprio lugar numa cultura que não foi a sua primeira casa.
Se há uma resposta direta sobre quando considerar voltar? Há, e é desconfortável: quando o desejo de ficar já não se sustenta internamente, mesmo que a cabeça continue somando vantagens objetivas. Não é apenas sobre pesar riscos como em uma planilha. É perceber que há algo na vida, talvez difícil de colocar em palavras, que começa a se esvaziar.

A vida que não cabe na conta bancária
Morar fora costuma trazer ganhos concretos: independência financeira, segurança, liberdade de ir e vir. Mas há algo que não pode ser medido em números. Isso inclui a qualidade do pertencimento. Também envolve a força dos laços. Além disso, está a familiaridade com certos códigos emocionais.
Muitas vezes, o desconforto aparece como um rumor persistente, um desconcerto nos encontros sociais, uma sensação de não conseguir ocupar um espaço próprio. Na clínica, encontro frequentemente pacientes que se perguntam: como posso querer voltar, se aqui tenho tudo o que, racionalmente, sempre desejei?
O paradoxo reside aí: o desejo de retorno não se explica, ele se impõe de dentro para fora. Uma paciente que morava no Texas descrevia o mal-estar de não conseguir construir uma rotina que fosse sua, mesmo vendo a família adaptada e feliz. O desejo de voltar era grande, mas maior ainda era a culpa por pensar em desmontar o que já estava estabelecido para os outros. O impasse não era material, mas profundamente relacional.
O estrangeiro dentro de casa
Outro caso clínico: uma mulher que emigrou jovem, constituiu família, casa, carreira. Quando nasceram os filhos, o que antes era adaptação virou estranhamento. A maternidade, coisa para ela tão ancorada na experiência brasileira (avós próximos, rede de apoio, jeito próprio de cuidar), tornou-se um exercício de improviso em solo estrangeiro.
A sensação de inadequação não vinha de fora, mas do modo como ela pensa a infância e educação das crianças. O desconforto vem de uma espécie de certeza de como a relação dos filhos com o mundo deveria ser e o país no qual moram não oferece: proximidade, alma e afeto.
Como saber se é hora de voltar?
Voltar ao Brasil é um processo. Na minha experiência como psicóloga percebo que o desejo de retorno começa como ruído, depois cresce como incômodo, até tornar-se insustentável. Nesses momentos, o diálogo interno se intensifica: até onde é possível negociar consigo mesmo? Vale a pena sacrificar o pertencimento em nome de uma estabilidade que já não nutre? O que se perde se ficar, e o que se perde se voltar?
Não há resposta pronta. Mas há sinais: quando o cotidiano se torna um esforço contínuo para caber, quando o espaço interno se retrai ao invés de se expandir, quando o corpo responde com sintomas de cansaço, insônia ou irritação crônica. Tudo isso pode ser expressão de um desejo interditado, o de voltar para aquilo que, em algum nível, segue sendo casa.
O que acontece na terapia
Voltar não precisa ser imediato. Às vezes, é possível criar pequenas ilhas de Brasil na rotina: manter vínculos com amigos antigos, resgatar rituais familiares, buscar grupos de convivência com brasileiros.
Outras vezes, é fundamental abrir espaço para o luto daquilo que não volta mais, inclusive a versão de si mesmo que ficou no passado. Na clínica, costumo fazer uma costura sobre as experiências do paciente: registrar as pequenas alegrias e os desconfortos diários, conversas com outros expatriados, dar-se permissão para admitir o desejo de retorno sem culpa.
Não se trata de decidir sob pressão, mas de reconhecer que toda escolha implica perdas e ganhos não mensuráveis.
Conclusão
Vejo que a decisão de voltar raramente se resolve no campo do raciocínio lógico. É preciso nomear o que, por vezes, só aparece como incômodo difuso ou desejo inconfessável.
Voltar é tão legítimo quanto partir, e muitas vezes, é o único modo de reocupar a própria história, mesmo que isso signifique lidar com as mesmas contradições que um dia motivaram a saída. No fundo, a questão não é apenas sobre onde morar, mas sobre onde é possível, ainda, existir por inteiro.
FAQ
Voltar é um fracasso?
Não. Voltar pode ser um gesto de soberania sobre a própria narrativa, sobre a própria vida. Reconhecer que a vida mudou e que os motivos para ficar já não sustentam o cotidiano é um ato de coragem, não de derrota.
Como lidar com a culpa de “desfazer” a vida construída fora?
A culpa é quase inevitável, especialmente quando outros dependem da decisão. Reconhecer que o desejo de retorno é legítimo e compartilhar o processo com a família pode transformar a culpa em um projeto que contemple a todos. O mais importante é dar voz ao que precisa ser dito, mesmo que ainda não se saiba o que fazer com isso.












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