"Algo Horrível Vai Acontecer" e a psicologia dos relacionamentos atuais
- 1 de abr.
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Atualizado: 11 de abr.
(Contém Spoilers) Os relacionamentos amorosos podem ser palco de frustrações e traumas — ontem, hoje e sempre. É isso que a série “Something Very Bad Is Going to Happen” revela: intuições negligenciadas, paranoias, comprometimento, amor e o peso do legado familiar.
É incômodo admitir, mas a maior parte das dores que atravessam os relacionamentos amorosos não nasce do acaso. Elas podem surgir da ansia de manter uma normalidade imaginada ou então de uma repetição silenciosa de padrões familiares, frustrações e traumas que, há gerações, moldam nosso modo de desejar, escolher e, principalmente, de ignorar sinais importantes.

A série “Something Very Bad Is Going to Happen” (“Algo Muito Ruim Vai Acontecer”), criada por Haley Z. Boston para a Netflix, aparece como um retrato realista das camadas invisíveis que atravessam a vida afetiva atual: a intuição rejeitada, o apego à esperança e a confusão entre paixão, amor e a própria capacidade de amar.
A narrativa, envolta em simbolismos, expõe com clareza como nossa intuição frequentemente é desacreditada (por nós mesmos e pelos outro) ou diluída em coincidências banais.
Uma intuição assustadora
Talvez todos já tenhamos experimentado alguma sensação aguda que não conseguimos justificar. O diferencial aqui é a falta de compromisso dos personagens com a própria intuição: sensações desconfortáveis são normalizadas e não reconhecidas como sinais legítimos.

A protagonista, Rachel, é uma jovem marcada por elementos mórbidos e um histórico familiar traumático, carrega em si a confusão típica de quem não pode confiar plenamente no próprio discernimento, (como nos casos de trauma complexo) trocando os sentidos dos acontecimentos, perdendo de vista as coisas que podem lhe fazer mal e interpretando como perigos coisas que não são exatamente perigosas (mas talvez frustrantes).
Essa desorganização psíquica decorre de uma cartela limitada de experiências interpessoais boas e da ausência de referências saudáveis, algo frequente em famílias difíceis ou tóxicas.
É curioso notar como, na série, as personagens fazem de tudo para se esquivar dos maus pressentimentos (e no fundo ter que dizer não), preferindo movimentos tortuosos, pequenas mentiras e renúncias silenciosas, apenas para evitar o confronto direto com o desejo do outro ou mesmo com a própria vontade.
A história desnuda o quanto somos habilidosos em racionalizar aquilo que, no fundo, sabemos que não nos serve, mas que insistimos em normalizar. Talvez por medo, talvez por costume.
Como psicóloga, vejo isso diariamente: traumatizados se esquecem dos detalhes, do sentido das coisas e dos porquês. Aprendem a duvidar de si, normalizando a incômoda sensação de que "algo muito ruim está prestes a acontecer". Talvez o algo ruim já aconteceu. Muitas vezes nas nossas infâncias, período em que mais éramos vulneráveis.
Os nossos mecanismos defensivos podem ser tão fortes que não recobramos a memória do já acontecido para fazer comparações no momento presente, coisa que acontece em situações da vida que não tem relação a nenhum tipo de trauma. Mas mesmo assim, como o funcionamento da mente é brilhante, podemos receber essa mensagem criptografada que é a intuição.
O debate clássico sobre filmes de terror: “por que não correu?”, “por que não trancou a porta?” se aplica aqui de modo contundente. O espectador, de fora, enxerga a armadilha, mas quem está dentro já perdeu o fio do discernimento.
Isso a leva a pensar que é, ela própria, uma pessoa ruim. Quase bebe um coquetel de magia mal informada, na ânsia de encontrar certeza e proteção contra o azar. Mas percebe depois que no amor, assim como na vida, não existem certezas.
Os nossos passados e seus mistérios
É no nosso passado que se encontram os padrões que não conseguimos identificar no hoje. A nossa infância, os nossos antepassados guardam a chave de um grande entendimento.

Há um momento na série em que Rachel e Nell vão em busca de documentos que possam comprovar a teoria de que há uma maldição nesta família. A construção de uma árvore genealógica feita de documentos é a metáfora para este olhar mais analítico sobre o que te formou. E é isso uma das coisas que acontece na terapia: investigar, descobrir, analisar para compreender os efeitos do trauma geracional.
O desejo de entender de onde viemos se mostra fundamental para que possamos, enfim, distinguir amor de idéia de amor, paixão de compulsão, desejo de repetição inconsciente.
Alma gêmea
Achei interessante esta alegoria de que "a maldição recai sobre aqueles que não consideram seus parceiros como almas gêmeas" ou então que "escolheram errado". Para mim isso me evoca a idéia de que um relacionamento em que não há maldições há um sentimento verdadeiro de escolha e de amor.

Muitas vezes confundimos amor com a construção de um relacionamento, compromisso sendo que estes na verdade teriam que derivar do simples amor. E é neste momento que a maldição do amor recai sobre nós: escolhemos a representação do que é o amor e não o amor em si.
Ainda pensando na idéia de alma gêmea, por outro lado, ela também pode se tornar problemática. Pode se tornar um empreendimento pesado, uma caça a agulha no palheiro. Uma aventura dessas não é neutra, ela que cobra seu preço.
E com isso não estou dizendo que devamos fazer duplinhas (trios ou o que for), nos contentando com o que não desejamos (a maldição). Mas que sustentemos uma vida solo, não é necessário um par para a gincana da vida. Quando descobrimos que a idéia de "par" é na verdade um produto massificado que se vende em prateleiras, podemos nos abrir para poder amar amigos, família, pets e sabe-se lá mais o que. Começamos a construir uma cartela muito mais ampla para o nosso mundo afetivo.

Mesmo assim, também existe valor nesta mesma idéia de “alma gêmea” (ideia que pode ser deturpada). Com ela não perdemos de vista que os arranjos sociais não são apenas meios para fins, eles são condutores de um algo muito maior: o amor.
Na pergunta “esta pessoa é realmente para mim?” existe coragem. O roteiro não se furta em mostrar o quanto evitamos essas perguntas porque elas doem, porque nos confrontam com a possibilidade de estarmos presos a pactos silenciosos, a alianças que pouco têm a ver com amor ou então de ter que ir embora.
O personagem do "guardião da maldição", por exemplo, é aquele que conseguiu dizer "não". Foi condenado a assistir a uniões que se sustentam por interesses que não envolvem afeto genuíno. Acho que é melhor assistir do que estar em uma relação assim.
Onde ficam os Homens no meio de tudo isso?
Homens também não escapam desse emaranhado, talvez o deles seja um pouco diferente: Nicky, o noivo, idealizando uma perfeição inalcançável e se frustrando com sua noiva, acaba por recorrer à mãe. Tão sozinhos os homens de hoje em dia estão. De um lado um pai tradicionalista e do outro uma mãe que não quer mais uma relação com um homem se estrague (No caso, a relação com seu filho). Nenhum dos pais, que deveriam ser as figuras que referenciam a vida de alguém, estão aterrados na realidade.

Veja que o homem de hoje, produto destes pais, talvez não tenha uma base solida de realidade. Nicky não é diferente, contando com a perfeição que sua mãe gostaria que existisse. Hoje em dia talvez não sejam mais as mulheres que acreditem em contos de fada, mas os homens. Eles recebem os sonhos não realizados de suas mães. Mães essas que um dia foram mulheres que acreditaram em contos de fada?
Na história, em dado momento o caos do casamento começa a se tornar muito mais intenso e é visível que aquilo não é mais um conto de fadas. Não é mais como deveria ser, segundo as "instruções" dos pais. E, como é comum em homens atualmente (talvez antigamente também fosse), Nicky só vai encostar no que ele sente lá no fundo na hora exata em que tem que decidir, a hora do "vamos ver".
Fora o momento de decisão, ele permanece mergulhado no ideal de como as coisas deveriam ser, resiliente, firme, o que não é algo ruim. Ter um parceiro com uma constância interna é uma boa experiência relacional. O problema vem quando ele não escuta notícias vindas do seu interior: dúvidas, críticas, pensamentos... Isso o faz cair em um estado hipnótico, mantendo percepção de que tudo está bem. Até não acredita na história da maldição que a noiva lhe conta.
Em meio ao caos instalado, o noivo tenta decifrar sinais, busca consertar o que jamais planejou ou tinha pensado que pudesse acontecer, mas tropeça na impossibilidade de conjurar do nada uma solução que agrade a todos. O que será que aconteceria se ele, ao invés de forçar uma normalidade, fosse entrando em contato com a sua percepção aos poucos e a levando em consideração?
Quando não se trata de algo horrível se trata de frustração
A mente tem mecanismos impressionantes quando se trata de nos poupar de informações ou verdades que não conseguimos digerir. Uma delas é a criação de histórias de terror. As vezes é mais fácil estar engajado com uma narrativa em que o outro (ou outros) sejam culpados por algum tipo de desconforto nosso. E talvez por traz desta criação inconsciente exista um fato simples, banal, mas que muda tudo. Por exemplo, se olharmos esta série neste ângulo, poderíamos dizer que Rachel já sentia algo de indesejado por ela em seu noivo: passividade, infantilidade, falta de recursos adultos, talvez uma visão do feminino rasa. Ela então se sente frustrada com Nicky. Para uma mulher isso pode ser mais dolorido do que uma história de maldições. Mas não devemos esquecer que também há histórias em que o "algo horrível" é mesmo real, como nos casos de violência doméstica, seja psicológica ou física. E nestes casos a fantasia pode ir em outra direção: a de que a violência não está acontecendo, sentir dó do perpetrador, depois de muitos sinais ainda acreditar em mudanças.
Mas quando a pessoa que de fato sofre violência começa a entrar em contato com a realidade do que está acontecendo, realmente se assemelha com a estética desta série. É como ir aos poucos se dando conta de que o que te rodeia é "profano".
Final explicado
Na festa, os convidados sangram: ninguém acredita que está com sua alma gêmea, todos sangram por pactos que não se sustentam por amor genuíno. Quando a família casa os noivos por motivos práticos, sem amor, Rachel é atingida pela maldição.

No dia seguinte acorda, está viva. Mais do que viva, agora ela sabe, vê tudo com mais realidade. Uma dura realidade. O noivo que não estava preparado para uma experiência tão insólita aos seus olhos, para ele resta se enrolar no cobertor junto ao seu urso de pelúcia. A fantasia acabou, e isso é perturbador.
Aquela manhã dá inicio ao processo de reconstrução interna do noivo e da noiva, o processo de reorganizar os cacos. Rachel se possui de um sofrido poder de discernimento. A vida reencontra seu eixo, mas agora sustentada por uma percepção mais ampla, menos ingênua, mais fiel ao que realmente é. Essa é a interpretação positiva do final. Mas a coisa toda pode tomar um caminho diverso. No mundo há hoje muitas mulheres que revivem seus traumas com situações trágicas nos relacionamentos. O evento passa a ser algo que as faz cada vez mais machucadas. Isso também pode acontecer para os homens, que acabam ficando cada vez mais rígidos quanto aos seus ideais masculinos.
Divagações minhas: Existe uma banda de nome sugestivo, se chama "Men I trust" . Numa musica chamada "Lauren" eu encontrei uma versão desse estado de discernimento que uma mulher ou um homem conquistam na vida. O discernimento é algo importantíssimo e que, ao invés de algo que nos apavora, pode ser uma voz camarada que nos guia.
"Trere's a voice I always trust It's a Helping hand tells me leave, I must ... 'Cause I can't stay forever ... Sync me within the outside world"




Nossa, esse texto me pegou de um jeito… principalmente essa parte de ignorar a própria intuição. Eu já vivi relações em que eu sentia que tinha algo errado desde o começo, mas ficava me explicando, tentando entender, dando mais uma chance. No fundo eu sabia, mas não queria ver.
Também fez muito sentido isso de repetir padrões sem perceber. Dá um certo incômodo ler, mas ao mesmo tempo parece que organiza coisas que a gente sente e não sabe nomear.
Obrigada por esse texto, de verdade. Me fez refletir bastante.