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O ciclo de idealização e desvalorização no relacionamento com um narcisista

A relação com uma pessoa narcisista costuma seguir um ciclo de encantamento e destruição. No começo, parece o encontro perfeito onde as duas partes estão dispostas a encontrar prazer e sentido juntas; depois, o que era admiração se transforma em confusão, medo e esgotamento. É uma dinâmica que não apenas machuca — ela mexe com o modo como a pessoa passa a se ver e a se sentir no mundo.


1. O início: quando o amor parece um espelho


No começo da relação com uma pessoa narcisista é comum se sentir especial. Ele(a) elogia, demonstra interesse, cria uma conexão intensa. É como se, de repente, alguém finalmente enxergasse tudo o que há de bom em você. Essa fase causa um encantamento profundo: a pessoa acredita ter encontrado alguém que realmente está aberto, disposto. Há concordância.


Este trecho da interação é especialmente sedutor pois a pessoa com algum tipo de transtorno de personalidade sabe oferecer um espaço ao outro onde parecem não haver barreiras, o casal vive então como que um periodo de simbiose.



2. A virada: o mesmo olhar que idealiza, passa a ferir


Onde antes havia carinho, agora há críticas, frieza e desprezo. O conjuje, confuso, tenta entender o que fez de errado e se esforça para recuperar o amor de antes. Vive entre momentos de luz e sombra, sem saber o que esperar.


O comportamento de alguém com transtorno de personalidade narcisista pode ser especialmente cruel por conta da inconstância da sua visão de mundo, no caso sempre guiada por uma idealização do que é bom e não por afeto consistente e linear. A maioria de nós se guia por um sistema onde nossos afetos costumam estar mais ou menos constantes, variando levemente conforme a vida acontece e aprendemos.


A pessoa narcisista não costuma ter esta linearidade pois esta mais ligada à idéias de importancia e poder. Como não há uma percepcão de "outro", a forma como o narcisista pensa e sente o mundo é uma simbiotica. Ele(a) e o mundo lá fora são um grande amalgamas e pessoas podem virar peças. E não há nada mais traumático do que ser visto como objeto.


3. Quando o outro toma conta por dentro


Com o tempo, a vítima começa a se vigiar o tempo todo: pensa antes de falar, muda seu jeito, tenta evitar conflitos. Sente medo de errar, de ser rejeitado, de provocar raiva. É como se o olhar do narcisista tivesse se instalado dentro dela própria. Mesmo quando o(a) parceiro(a) não está presente, a voz dele continua ecoando na cabeça — criticando, duvidando, diminuindo.


A pessoa deixa de confiar em si e passa a ver a vida pelos olhos de quem a machuca. Isso gera uma sensação de vazio, de confusão e, muitas vezes, de vergonha por não conseguir “sair dessa”.


4. O ciclo de quente e frio e o que causa


Essa mudança constante — ora carinho, ora frieza — desestabiliza de modo que não se sabe o que vem a seguir, e isso deixa qualquer um (é isso mesmo, qualquer um) em estado permanente de tensão. Não há relacionamentos frutiferos e prazerosos quando há oscilação radical.


O corpo começa a reagir: o coração acelera, o estômago aperta, aparecem as famosas “borboletas no estômago”, que muitos confundem com paixão, mas na verdade são sinais de ansiedade.


Esse sobe e desce emocional causa um tipo de dependência. O medo e o alívio se misturam, e a pessoa passa a viver à espera do momento em que o outro voltará a ser carinhoso. Esse ciclo é o que mais enlouquece — o amor vira um jogo de "tentar melhorar as coisas".


5. O caminho para se reencontrar


Superar essa vivência exige tempo e apoio. É preciso reaprender a ouvir a própria voz, a confiar nas próprias percepções e a se lembrar de quem se era antes dessa relação.


A terapia pode ajudar muito nesse processo — não oferecendo respostas prontas, mas ajudando a pessoa a reconstruir seu próprio espaço interno, livre do medo e do controle.

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