Quanto tempo é tempo demais na terapia?
- há 3 dias
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Essa pergunta chega até mim de formas diferentes. Às vezes ela vem pela boca dos meus próprios pacientes, constrangidos, depois de alguém perguntar: "Você ainda está em terapia? Mas já não resolveu isso?" Às vezes ela vem carregada de uma culpa silenciosa por "depender", aquela sensação de que estar há anos num processo terapêutico é lido como evidência de que algo não funciona: nem a terapia, nem o terapeuta, nem a própria pessoa.
Quero falar sobre isso com honestidade.

A lente errada: Por que a terapia não funciona como um remédio
Existe uma forma muito comum de enxergar a terapia, e ela é a lente errada.
As pessoas costumam associar o tratamento psicológico a outros tipos de resolução de problemas. Você vai ao médico, recebe uma receita, toma o remédio, melhora. Você tem uma pendência burocrática, protocola o documento, assina o papel, resolve. Há um início, um meio e um fim muito bem delimitados.
Com a mente, não é assim.
A mente não funciona como uma linha de produção. Ela não tem prazo de entrega, não tem etapas a serem checadas, não tem um botão de "concluído". A mente é um lugar sem começo fixo e sem fim previsto. Ela carrega passado, presente e futuro ao mesmo tempo, embaralhados, sobrepostos, vivos. Tratar a complexidade de uma vida humana como se fosse um problema técnico a ser solucionado é, no mínimo, uma ilusão confortável.
E a vida, convenhamos, não é simples assim.
Terapia de longo prazo: o que muda com o tempo
Ao longo dos anos que atendo como psicóloga, já acompanhei pacientes encontrarem o amor das suas vidas. Já vi casamentos, filhos, mudanças de país. Já vi o fim de grandes histórias, lutos, perdas, transformações profundas. Já estive ao lado de pessoas em seus momentos de maior vulnerabilidade e nos seus momentos de maior florescimento.
E o que percebo, sempre, é que a vida não para de acontecer enquanto a terapia acontece. Elas caminham juntas. A terapia não é um intervalo entre os problemas, ela é um espaço de elaboração contínua de tudo que a vida vai trazendo.
Pensar sobre a própria vida não é um sintoma de fraqueza. É uma prática essencial. O erro seria o silêncio: não pensar, não questionar, não elaborar o que se vive e apenas atuar. Caminho até perigoso esse eu diria.
O valor de ser testemunhado: benefícios de um acompanhamento psicológico contínuo
Tem algo que acontece numa relação terapêutica longa e que é raramente nomeado: o valor de ser profundamente conhecido por alguém.
Quando um paciente está comigo há muitos anos, eu sei quem ele é. Sei dos detalhes da sua história, dos pensamentos que ele nunca disse pra mais ninguém, dos padrões que se repetem, das conquistas que custaram muito. Há uma memória afetiva e clínica construída ao longo do tempo, que não se recria do zero a cada nova relação terapêutica.
Isso não subtrai do tratamento. Isso soma.
Ser acompanhado de perto, por alguém que te conhece de profundamente, é criar história. É criar vínculo. É criar o que a psicanálise chama de objetos internos bons — referências internas de encontros genuínos, de ser visto, compreendido, acolhido.
Nem todas as pessoas tiveram isso. Nem todos os encontros ao longo da vida foram seguros, acolhedores, honestos. Para muitas pessoas, é dentro do processo terapêutico que se encontra, pela primeira vez, a experiência de um vínculo confiável. E não há absolutamente nada de errado nisso.
Quando é a hora certa de terminar a terapia?
Essa é uma pergunta que o próprio paciente responde, quando chega a hora.
Na minha experiência, há um momento em que algo se assenta de um jeito diferente.
Uma clareza tranquila, sem urgência, sem drama: já está bom, agora quero ir para outros lugares. Isso não é fracasso, é amadurecimento. É exatamente o que o processo se propõe a construir.
A terapia longa não é sinal de que algo está errado. Pode ser sinal de que alguém está levando a própria vida a sério.
Se você está em terapia há muito tempo e já ouviu comentários assim, saiba que o tempo não é o inimigo do processo. Às vezes, é exatamente o que ele precisa.




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