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O que é trauma para a psicanalise relacional?

Para a psicanálise relacional, trauma não é um evento isolado, mas uma falha no campo relacional: o dano nasce menos do que foi feito e mais da ausência de um outro capaz de reconhecer, nomear e sustentar a experiência. O que não pode ser sentido junto de alguém é dissociado.


O que muda na psicanálise relacional


A psicanálise relacional desloca o trauma do modelo pulsional (trauma como excesso de excitação a ser descarregado) para o intersubjetivo: trauma como aquilo que acontece, ou deixa de acontecer, entre duas pessoas. O ambiente e a resposta do outro deixam de ser pano de fundo e passam a ser o centro.

Quais são os autores que falam sobre trauma relacional?

Ferenczi: o desmentido que consuma o trauma

Em "Confusão de línguas entre adultos e a criança", Ferenczi mostra que o traumático não está apenas no ato, mas na negação que se segue. Quando o adulto desmente a experiência da criança, ela fica sozinha com uma realidade que ninguém valida. É essa ausência de reconhecimento que transforma o acontecimento em trauma.


Winnicott e Khan: trauma cumulativo

Para Winnicott, o trauma é a interrupção da continuidade de ser, produzida por falhas do ambiente ao longo do tempo. Masud Khan estende isso com a noção de trauma cumulativo: o acúmulo silencioso de pequenas falhas de proteção ao longo do tempo, cada uma imperceptível como evento, mas somando um dano estrutural. Trauma deixa de exigir um episódio único e localizável.


Bromberg: dissociação no lugar de repressão

Na tradição relacional, o mecanismo central do trauma não é o recalque, mas a dissociação. Bromberg parte da ideia de que a mente é normalmente múltipla; o trauma rompe a capacidade de manter os diferentes estados do self em diálogo. O que não pôde ser sentido e pensado dentro de uma relação fica de fora, em estados "not-me" que não se comunicam entre si.


Bollas: o sabido não pensado

Bollas aponta que o trauma relacional se inscreve antes da linguagem, como uma gramática relacional. É algo que o sujeito é sem conseguir pensar, transmitido pela forma como foi cuidado, não pelo conteúdo do que foi dito.


Por que a reparação também é relacional

Se o trauma se dá na relação e é perpetuado pela resposta do outro, é na relação que precisa ser reparado. No encontro analítico, o que antes foi vivido sozinho pode enfim ser experimentado na presença de um outro — e é aí, na transferência e na contratransferência, que os estados dissociados podem voltar a coabitar.

Qual a diferença entre trauma relacional e trauma na psicanálise clássica?

Na psicanálise clássica, o trauma é pensado em termos econômicos: um excesso de excitação que o aparelho psíquico não consegue processar, ligado à fantasia e à pulsão. Na perspectiva relacional, o trauma se desloca para o campo intersubjetivo. O que importa não é apenas a intensidade do que foi vivido, mas a presença ou ausência de um outro capaz de reconhecer e sustentar a experiência. O foco sai do interior isolado do sujeito e passa para o que acontece entre as pessoas. A teoria do apego de John Bowlby tem estes tons relacionais também. 

Por que a dissociação é tão central para entender o trauma relacional?

Porque, na tradição relacional, o trauma não opera principalmente pelo recalque, mas pela dissociação. Em vez de um conteúdo ser reprimido e depois retornar, aquilo que não pôde ser sentido e pensado junto de outra pessoa fica separado, em estados do self que não se comunicam entre si. Isso ajuda a explicar por que o trauma relacional costuma aparecer não como lembrança, mas como rupturas, contradições internas e partes da experiência que a pessoa vive sem conseguir integrar. Isso faz sobrepor um pouco com o diganostico de TEPT-C, mas são diferentes.

Como o trauma relacional é trabalhado na análise?

Se o trauma se constituiu na relação, é também na relação que pode ser elaborado. No encontro analítico, os estados dissociados e as experiências que ficaram sem reconhecimento podem emergir dentro do vínculo, na transferência e na contratransferência. O trabalho não consiste em recuperar um evento, mas em tornar possível viver, na presença de um outro atento, aquilo que antes só pôde ser suportado na solidão. É um processo gradual de reintegração de estados do self.

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