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O trauma relacional pode vir de situações “pequenas”, como silêncio, desprezo ou frieza?

Sim. O trauma relacional frequentemente se forma a partir de experiências sutis e repetidas, não de acontecimentos isolados ou espetaculares. Silêncio, desprezo, frieza ou indiferença, quando constantes, produzem um efeito psíquico profundo: a criança ou o sujeito aprende que sua experiência interna não encontra acolhimento no outro.


Clinicamente, o trauma emerge menos pelo que foi dito ou feito e mais pelo clima relacional vivido. Quando sentimentos precisaram ser retraídos para evitar rejeição ou ruptura do vínculo, instala-se uma organização defensiva. O sofrimento aparece depois como vazio, dificuldade de se sentir legítimo, medo de depender ou de se expor emocionalmente.


O impacto não está no tamanho do gesto, mas na ausência de reconhecimento de valor, importância. Pequenas falhas repetidas, quando não reparadas, tornam-se estruturantes.

Quais são os efeitos de não encontrar acolhimento em um outro significativo?

A ausência de acolhimento por um outro significativo tende a produzir efeitos que não são apenas emocionais, mas estruturais na forma de se relacionar consigo e com os outros. Quando não há quem sustente, nomeie ou legitime a experiência vivida, o sujeito aprende a se conter, a duvidar do próprio sentir ou a se adaptar excessivamente.


Clinicamente, isso pode aparecer como dificuldade de confiar, medo de depender, sensação crônica de solidão mesmo em vínculos, culpa ao expressar necessidades e uma tendência a buscar reconhecimento em relações assimétricas. Internamente, forma-se um vazio ou uma autoexigência rígida que tenta compensar a falta de amparo inicial.


Em termos metapsicológicos, o que não foi acolhido não pôde ser simbolizado. Permanece como tensão difusa, repetição ou sofrimento sem nome, até que encontre, na relação analítica, um outro capaz de sustentar aquilo que antes precisou ser silenciado.

Por que me sinto sozinho mesmo estando em relações próximas?

Porque a solidão, nesses casos, não é ausência de pessoas, mas ausência de encontro psíquico. Quando, nas relações iniciais, não houve alguém capaz de reconhecer e sustentar a experiência emocional, o sujeito aprende a estar com o outro sem estar inteiro. O vínculo existe, mas a intimidade não se constitui, mantendo uma sensação interna de isolamento.

Como a falta de acolhimento na infância influencia minha autoestima hoje?

A autoestima se forma a partir do olhar do outro significativo. Quando esse olhar foi frio, indiferente ou condicional, a pessoa internaliza a ideia de que precisa se adaptar para merecer valor. O resultado costuma ser uma autoestima frágil, dependente de aprovação externa ou marcada por autocrítica intensa.

Por que tenho dificuldade em pedir ajuda ou depender de alguém?

Porque depender, em algum momento, foi vivido como risco. Quando o outro falhou em acolher, o psiquismo aprendeu a se organizar em autossuficiência defensiva. Pedir ajuda passa a evocar vergonha, medo de rejeição ou sensação de invasão. O sofrimento não está na autonomia em si, mas no fato de ela ter sido construída como proteção, não como escolha.

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