
Assertividade não se ensina, se transmite: e pode se construir
A assertividade não nasce de frases prontas nem de treino de postura. Ela se forma quando o sujeito aprende, em alguma relação significativa, que pode desejar, se colocar e ainda assim preservar o vínculo que tem com o outro.
Quando isso falha, dizer “não” passa a gerar culpa, medo ou retração. O problema, nesses casos, não é falta de habilidade comunicacional, mas a ausência de uma autorização interna para existir sem se apagar.
O que hoje se chama de assertividade
Hoje, chama-se assertividade um conjunto de comportamentos observáveis: saber dizer não, falar com firmeza, sustentar opiniões e impor limites. O foco recai sobre como a pessoa fala e se apresenta, não sobre a posição psíquica a partir da qual ela fala, ou seja, do seu mundo interior.
Grande parte dos conteúdos trata a falta de assertividade como excesso de passividade, permissividade ou necessidade de agradar. A solução oferecida costuma ser corretiva: ajustar a postura, treinar respostas, adotar frases mais firmes. Nesse modelo, ser assertivo passa a significar parecer seguro, ainda que internamente o sujeito siga dividido, culpado ou com medo de perder amizades ou relações.
Assim, a assertividade é reduzida a uma técnica de comunicação ou a um ideal de performance social, desligada da história relacional que fez o sujeito aprender que se calar, ceder ou se adaptar era a forma mais segura de existir.
Por que técnicas, frases prontas e treinos falham
Técnicas de assertividade partem da suposição de que o problema está na forma da comunicação. Ensinam o que dizer e como dizer, mas ignoram a experiência interna de quem fala. Quando o sujeito aprende uma frase assertiva, mas continua sentindo culpa, medo ou ansiedade ao se posicionar, a técnica vira esforço e atuação.
Nesses casos, o “não” não falha por falta de clareza, mas porque tocar no próprio limite ainda é vivido como risco de perda do vínculo. A tarefa até pode ser executada, mas o custo psíquico permanece.
Sem transformação interna, o sujeito até se impõe, mas se sente agressivo, errado ou ameaçado depois.
Por isso, treinos e scripts não produzem assertividade sustentada. Eles oferecem adaptação consciente, não reorganização psíquica. A assertividade real só se estabelece quando o desejo deixa de ser vivido como algo perigoso e passa a poder se colocar sem que o sujeito precise se punir por isso.
O que a TCC e abordagens afins propõem (e seus limites)
Na TCC, a assertividade é compreendida como uma habilidade social que pode ser desenvolvida por meio de reestruturação cognitiva e treino comportamental. Parte-se da ideia de que a pessoa não se posiciona porque pensa de forma distorcida, por exemplo, acreditando que desagradar é sempre perigoso ou que conflitos precisam ser evitados.
O trabalho, então, consiste em identificar essas crenças, questioná-las racionalmente e testar novos comportamentos. Embora isso possa gerar algum alívio funcional, o limite clínico aparece quando o sujeito até se posiciona, mas continua sentindo culpa intensa, medo de retaliação ou angústia após o confronto.
Nesses casos, o desejo segue interditado. O problema não é apenas a crença, mas a história relacional que ensinou que se colocar ameaça o vínculo. A TCC tende a tratar esse custo psíquico como erro de pensamento, quando, na verdade, ele expressa uma organização interna construída para sobreviver.
Assertividade e submissão: quando ceder foi necessário
Muitas pessoas que hoje sofrem por não conseguir se posicionar aprenderam, em algum momento da vida, que ceder era a forma mais segura de manter o vínculo. Em contextos marcados por crítica, instabilidade emocional, punição ou excesso de exigência, a submissão não foi fraqueza, foi estratégia de sobrevivência psíquica.
Nessas histórias, dizer “não”, contrariar ou expressar desejo próprio podia significar perda de amor, retaliação ou abandono. O corpo aprendeu isso antes da linguagem. Por isso, mesmo na vida adulta, a assertividade desperta medo desproporcional, como se o risco ainda estivesse presente.
Quando essa solução antiga começa a gerar sofrimento (esgotamento, ressentimento, relações desequilibradas), o sujeito procura a assertividade como saída. Mas o conflito não se resolve eliminando a submissão à força. É preciso reconhecer que ela teve função, antes de poder construir outra forma de se colocar sem se violentar.
As condições internas da assertividade real
A assertividade só se sustenta quando existem certas condições internas. Não basta querer se posicionar; é preciso poder. Isso começa pelo contato com o próprio desejo: saber o que se quer, o que se recusa e onde se está cedendo para preservar o vínculo.
Além disso, é necessário reconhecer que esse desejo tem valor. Quando o sujeito foi ensinado, direta ou indiretamente, a priorizar o outro, o próprio querer passa a ser vivido como exagero, egoísmo ou ameaça. Nesses casos, o silêncio protege mais do que a fala.
Por fim, a assertividade exige coragem para apostar sem garantia. Dizer “não” implica tolerar frustração, conflito e a possibilidade de perda. Essa coragem não é traço de personalidade, mas efeito de uma reorganização psíquica: quando o desejo deixa de ser vivido como perigoso, ele pode se colocar sem que o sujeito precise se punir por isso.
Assertividade não é necessariamente agressividade, é autorização interna
Muitas pessoas evitam se posicionar porque confundem assertividade com agressividade. Temem machucar, invadir ou se tornar alguém que não reconhecem. Esse medo costuma estar ligado a histórias em que a agressividade do outro foi excessiva, imprevisível ou destrutiva.
A assertividade, no entanto, não nasce do ataque, mas da autorização interna para existir. Quando o sujeito pode sustentar o próprio desejo, a fala não precisa ser dura nem defensiva. Ela se torna simples, direta e proporcional.
Na agressividade desorganizada, há descarga e ruptura. Na assertividade, há limite e presença. O que muda não é o tom da voz, mas a posição subjetiva: não se trata de vencer o outro, mas de não desaparecer diante dele.
O que muda numa análise: A experiência de ser assertivo livremente
Na análise, a assertividade não é treinada nem exigida. Ela começa a aparecer quando o sujeito já não precisa se proteger do próprio desejo. Ao longo do processo, o medo de se colocar vai sendo compreendido a partir da sua história relacional, e a culpa deixa de funcionar como freio automático.
A experiência analítica oferece um campo onde o sujeito pode discordar, frustrar, se calar ou se posicionar sem que o vínculo se rompa. Essa vivência, repetida e elaborada, vai sendo internalizada. Com o tempo, o “não” deixa de soar ameaçador, e o “sim” deixa de ser compulsório.
O resultado não é alguém mais combativo, mas alguém mais inteiro. A assertividade surge como efeito de uma relação interna menos dividida, em que o desejo pode se colocar sem que o sujeito precise se apagar para existir.
Além disso, os elementos que fizeram com que alguém tivesse medo ou percebesse sua propria vontade e impositividade como algo não desejavel são diversos, a depender da história familiar de cada um, experiências e relações. É na psicoterapia que a pessoa percebe falácias, testa limites e transcende a forma de se perceber.
Para quem esse processo faz sentido
Este processo costuma fazer sentido para pessoas que:
se percebem cedendo mais do que gostariam e acumulando ressentimento
sentem culpa ou ansiedade intensa ao dizer “não”
já tentaram técnicas de assertividade e se sentiram artificiais ou forçadas
funcionam bem para os outros, mas se sentem apagadas ou não valorizadas nas relações
percebem que o problema não é falta de fala, mas excesso de renúncia
Nesses casos, a questão central não é aprender a se posicionar melhor, mas rever a história que ensinou que se colocar era arriscado demais.
Olá
Meu nome é Bruna
Sou Bruna Lima, psicóloga clínica, com atuação em psicoterapia psicanalítica para adultos. Atendo pessoas que sentem angústia persistente, repetições emocionais, vazio ou sofrimento difuso que não se resolve apenas com técnicas de controle de sintomas.
Meu trabalho é orientado pela psicanálise (Bion, Klein, Ferenczi, Bollas) e por uma escuta clínica cuidadosa, que ajuda a dar forma psíquica ao que ainda não tem nome, diferenciando ansiedade comum de conflitos emocionais mais profundos.
Atendo na Av. Paulista com possibilidade de atendimento presencial e online, oferecendo um espaço ético, seguro e contínuo para quem busca compreensão, elaboração emocional e transformação psíquica.

January 7, 2026 at 11:18:43 AM



